5 de maio de 2008

Energia Renovável - Vento (parte III)

O potencial eólico brasileiro é de 143,5 GW (GigaWatts), segundo um estudo da Centro de Pesquisa em Energia Elétrica (Cepel) do Ministério de Minas e Energia feito em 2005. O estudo levou em conta geradores de energia eólica de até 50 metros. Com o avanço tecnológico no setor, que permite geradores de até 80 metros atualmente no Brasil, o potencial cresceria mais ou menos 50%.


“Quanto mais alto, mais potencial eólico, já que vão diminuindo os problemas com relevo e rugosidade do solo”, afirma o pesquisa da Cepel Antônio Leite. Esse potencial de 143,5 GW representaria a geração de energia de 146 milhões de residência. Essa conta, no entanto, é só ilustrativa. A energia eólica não é energia firme, ou seja, com fornecimento constante. Assim, sua energia é armazenada em baterias ou trabalha em conjunto com as hidrelétricas, ajudando, por exemplo, no abastecimento dos reservatórios dessas usinas. O potencial instalado no Brasil é atualmente de 247,5 MW (MegaWatts), ou seja, 0,25% dos 99,7 GW gerados no país, segundo dados de dezembro de 2007. A tabela abaixo mostra dados de seis meses antes.

Usinas Eólicas em Operação
Usina Potência (kW) Município
Eólica de Prainha 10.000 Aquiraz - CE
Eólica de Taíba 5.000 São Gonçalo do Amarante - CE
Eólica-Elétrica Experimental do Morro do Camelinho 1.000 Gouveia - MG
Eólio - Elétrica de Palmas 2.500 Palmas - PR
Eólica de Fernando de Noronha 225 Fernando de Noronha - PE
Mucuripe 2.400 Fortaleza - CE
RN 15 - Rio do Fogo 49.300 Rio do Fogo - RN
Eólica de Bom Jardim 600 Bom Jardim da Serra - SC
Eólica Olinda 225 Olinda - PE
Parque Eólico do Horizonte 4.800 Água Doce - SC
Macau 1.800 Macau - RN
Eólica Água Doce 9.000 Água Doce - SC
Parque Eólico de Osório 50.000 Osório - RS
Parque Eólico Sangradouro 50.000 Osório - RS
Parque Eólico dos Índios 50.000 Osório - RS
Total: 15 Usina(s) Potência Total: 236.850 kW

O crescimento da capacidade instalada no país se deve em grande parte pelos incentivos que o governo federal tem dado para o assunto. O Programa de Incentivo a Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), administrado pelo BNDES, trata-se de uma linha de crédito prevê financiamento de até 70% do investimento, excluindo apenas bens e serviços importados e a aquisição de terrenos. As condições do financiamento são TJLP mais 2% e até 1,5% de spread de risco ao ano. A carência de seis meses, após a entrada em operação comercial, amortização por dez anos e não-pagamento de juros durante a construção do empreendimento.

Entre no site do Proinfa - Programa de Incentivo a Fontes Alternativas de Energia Elétrica

Energias Renováveis no Brasil segundo o Proinfa

As fontes renováveis de energia terão participação cada vez mais relevante na matriz energética global nas próximas décadas. A crescente preocupação com as questões ambientais e o consenso mundial sobre a promoção do desenvolvimento em bases sustentáveis vêm estimulando a realização de pesquisas de desenvolvimento tecnológico que vislumbram a incorporação dos efeitos da aprendizagem e a conseqüente redução dos custos de geração dessas tecnologias.

O debate sobre o aumento da segurança no fornecimento de energia, impulsionado pelos efeitos de ordem ambiental e social da redução da dependência de combustíveis fósseis, contribui para o interesse mundial por soluções sustentáveis por meio da geração de energia oriunda de fontes limpas e renováveis. Nessa agenda, o Brasil ocupa posição destacada em função da sua liderança nas principais frentes de negociação e da significativa participação das fontes renováveis na sua matriz energética.

O Brasil apresenta situação privilegiada em termos de utilização de fontes renováveis de energia. No país, 43,9% da Oferta Interna de Energia (OIE) é renovável, enquanto a média mundial é de 14% e nos países desenvolvidos, de apenas 6%. A OIE, também denominada de matriz energética, representa toda a energia disponibilizada para ser transformada, distribuída e consumida nos processos produtivos do País.

O desenvolvimento dessas fontes ingressa em uma nova etapa no país com a implantação do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (PROINFA), criado no âmbito do Ministério de Minas e Energia (MME) pela Lei nº 10.438, de 26 de abril de 2002, e revisado pela Lei nº 10.762, de 11 de novembro de 2003. A iniciativa, de caráter estrutural, vai alavancar os ganhos de escala, a aprendizagem tecnológica, a competitividade industrial nos mercados interno e externo e, sobretudo, a identificação e a apropriação dos benefícios técnicos, ambientais e socioeconômicos na definição da competitividade econômico-energética de projetos de geração que utilizem fontes limpas e sustentáveis.

Energia Eólica no Brasil segundo o Proinfa
A também denominada energia dos ventos pode ser explicada, em termos físicos, como a energia cinética formada nas massas de ar em movimento. Seu aproveitamento é feito por meio da conversão da energia cinética de translação em energia cinética de rotação. Para a produção de energia elétrica, são utilizadas turbinas eólicas, também conhecidas como aerogeradores, e para a realização de trabalhos mecânicos (como o bombeamento de água ou a moagem do trigo), cata-ventos de diversos tipos.

As primeiras experiências para geração de eletricidade por meio dos ventos surgiram no final do século XIX. Em 1976, menos de um século após o início dos estudos, foi na Dinamarca, a primeira turbina eólica comercial ligada à rede elétrica pública. Atualmente, existem mais de 30.000 MW de capacidade instalada no mundo. A maioria dos projetos está localizada na Alemanha, na Dinamarca, na Espanha e nos Estados Unidos. No Brasil, os primeiros anemógrafos computadorizados e sensores especiais para medição do potencial eólico foram instalados no Ceará e em Fernando de Noronha (PE) no início dos anos 1990.

Dados do Atlas do Potencial Eólico Brasileiro apontam que o potencial eólico brasileiro indicativo é de 143.000 MW, sendo que 7.694,05 MW já foram autorizados. Atualmente, as usinas em operação tem capacidade instalada para gerar apenas 26,8 MW - o Ceará participa com quase 65% desta capacidade. As áreas com maior potencial eólico encontram-se nas regiões Nordeste, Sul e Sudeste.

Estima-se que o potencial eólico bruto mundial seja da ordem de 500.000 TWh/ano, o que significa mais de 30 vezes o atual consumo mundial de eletricidade. Desse potencial, no mínimo 10% é tecnicamente aproveitável, o que corresponde a cerca de quatro vezes o consumo mundial de eletricidade.

Fontes: ANEEL e MME.

Mais sobre energia eólica nos vídeos:

Turbina eólica silenciosa para a área urbana:


Turbina eólica para ventos de qualquer rumo e velocidade:

Os grandes desafios de nosso tempo

No plano econômico estamos à beira de uma recessão econômica internacional que começou nos Estados Unidos e está se refletindo na Europa e no resto do planeta. No plano político, os grandes problemas que afetam o mundo ainda não encontram uma resposta global. Existe um grave vazio na ordem mundial. A análise é do ex-presidente de Portugal, Mario Soares.
LISBOA - O mundo – e o Ocidente, em particular – estão atravessando uma fase de transição e de grande insegurança, que, por se manifestar em diferentes planos, torna imprevisíveis os próximos tempos. No plano econômico estamos à beira de uma recessão econômica internacional que começou nos Estados Unidos e está se refletindo na Europa e no resto do planeta. Ainda não sabemos se irá se agravar ou começará a ser superada, o que não depende apenas do Ocidente, mas também de múltiplos fatores internacionais, como o aumento ou a baixa dos preços do petróleo, ou o comportamento das economias emergentes.

O capitalismo especulativo está em um pantanal, já que a economia especulativa tem hoje pouco a ver com a economia real. Cria-se e perde-se grandes fortunas nos paraísos fiscais, onde circula impunemente o chamado dinheiro sujo, proveniente da droga e de outros comércios ilícitos (tráfico ilegal de armas, de órgãos humanos, da prostituição, etc) enquanto a economia real está gerando desemprego, paralisação econômica, inflação, crise na bolsa e no crédito imobiliário, irregularidades e quebras de instituições bancárias e de seguros ate agora consideradas intocáveis.

Por sua vez, as organizações financeiras internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional – que não dependem, como deveria ser, das Nações Unidas – se mostram obsoletas e incapazes de enfrentar a crise financeira em curso. O mesmo se pode dizer da Organização Mundial do Comercio – também fora do âmbito da ONU – onde os necessários consensos com os países emergentes e em desenvolvimento são cada vez mais difíceis de serem estabelecidos.

Nestes tempos de globalização – não apenas econômica, mas também científica, tecnológica, informática e de um novo fenômeno que é a nascente formação de uma opinião pública mundial – os grandes problemas que afetam o mundo ainda não encontram uma resposta global, que apenas poderia consistir em uma profunda reestruturação da ONU e de seu Conselho de Segurança. E o G-8, que agrupa as maiores potências, não passa de um diretório das nações ricas, carente de legitimidade para orientar o mundo, como mostra a experiência dos últimos anos. Existe, portanto, um grave vazio na ordem mundial.

Quais são os maiores problemas que afetam o mundo contemporâneo e que, se não forem resolvidos em um prazo razoável envolvem uma ameaça para a humanidade? Enumero por ordem de importância. Em primeiro lugar as mais graves questões ambientais? O buraco na camada de ozônio, o aquecimento da Terra e as mudanças climáticas, a contaminação da água e do lençol freático, a desertificação, a redução da biodiversidade, o progressivo desaparecimento das florestas, a degradação urbana.

A fome e a pobreza endêmica que afetam mais de dois terços da população mundial apesar de a ciência e a tecnologia disporem de recursos para eliminar facilmente esses problemas com a condição de que haja vontade política para enfrentá-los. A violência – fomentada pela violência cotidiana propagada pelos meios de comunicação – os conflitos, as guerras, o comércio ilimitado de armas e a corrida armamentista nuclear às quais são incapazes de por um freio as potências e as instituições internacionais.

As pandemias com a da Aids e outras doenças que haviam sido erradicadas e que ressurgem, com a tuberculose, a malária e outros desafios que somente podem ter uma resposta global. O fanatismo religioso e político, a perda de valores nas sociedades consumistas e hedonistas de nosso tempo, o desprezo pelos problemas sociais, ambientais e pelos direitos humanos.

Tudo isto forma uma profunda crise mundial, comparável à vivida no começo da Segunda Guerra Mundial, depois das avassaladoras vitórias militares de Hitler e do imperialismo japonês, quando alguns pessimistas vislumbravam “um retrocesso de mil anos”. Mas nessa oportunidade, como agora, não podemos – nem devemos – perder a esperança e deixar de lutar pelos valores do humanismo universal.

A ordem mundial é novamente multilateral. O império norte-americano como tal está em vias de desaparecer. As soluções para os problemas que enfrentamos não dependem apenas, como se pensava no começo deste século, do Ocidente (Estados Unidos e Europa). Hoje também contam os chamados países emergentes, Brasil, Rússia, China e India – e outros mais como Japão, México, África do Sul, Irã, Egito e Turquia. Isto quer dizer que o Ocidente deve entender que tem de negociar com esses países, bem como ajudar na reforma da ONU se quer realmente enfrentar os grandes desafios de nosso tempo.

Muito depende ainda dos Estados Unidos e de seu próximo presidente. Seja quem for, terá que mudar radicalmente as políticas interna e externa de Washington, se quiser evitar que sua nação entre em decadência. Por sua vez, a União Européia deve ter a coragem de definir uma estratégia autônoma e indicar o rumo que seguirá nos próximos anos na esfera institucional e como ator global no cenário internacional.

Fonte: Agência Carta Maior


Comentários: Acrescentaria ainda a essa lista do ex-presidente português a Coréia do Sul , se não agora, com certeza em longo prazo.

Parte da decadência norte-americana deve vir a ser confirmada por meio de mudanças reais de postura e de rigidez nos acordos econômicos de forma geral, principalmente em conferências de negócio como Davos e OMC. Infelizmente, tais encontros ditam as regras comerciais no mundo, influenciam o arranjo das políticas fiscais dos países participantes e impedem de modo direto o crescimento dos países do Terceiro Mundo, como já é sabido.

O problema agora para os EUA é descobrir quem no mundo quer estar próximo duma economia em chamas???

“Conceito Científico” e os desafios do desenvolvimento na China de hoje

Texto-base de Elias Jabbour da apresentação “Conferência sobre a China” organizada pela Fundação Alexandre Gusmão e o Ministério das Relações Exteriores que ocorreu nos dias 17 e 18 de abril no Palácio Itamaraty (Rio de Janeiro) e que contou com a presença de cerca de duas dezenas de intelectuais entre eles brasileiros, argentinos, chineses e norte-americanos.

O “desenvolvimentismo com características chinesas”

Baseada uma grande autoconfiança num mundo de turbulências e mudanças drásticas, sendo a principal delas a desagregação da URSS e a conseqüente débâcle do sistema socialista mundial, a governança chinesa fez a correta escolha soberana – portanto, fora dos esquemas estratégicos dos EUA, como o fez a América Latina na década de 1990 –, de navegar no mar da “globalização” como forma de alcançar o objetivo de reprojetamento da China ao rol das grandes nações em um mundo marcado pelo rápido desenvolvimento das forças produtivas e pela existência de grandes potências.

Assim, e após o diagnóstico acerca da improbabilidade de uma 3ª Guerra Mundial envolvendo o capitalismo e o socialismo, a consecução dos citados objetivos centrou-se em uma participação ativa no já referido processo de “globalização”. Para tanto, fez praticar uma retificação de curso amplamente baseada tanto na capacidade milenar de comércio e de acumulação do camponês médio chinês (reconstruindo, assim, o pacto de poder vitorioso em 1949), quanto na constituição de um círculo internacional chinês espalhado pelo Sudeste Asiático. Círculo com poder financeiro suficiente para carrear ao continente seus excedentes, viabilizando, assim, tanto o financiamento externo da modernização e a indigenização de avançadas técnicas modernas de administração, quanto a solução de pendências históricas como Hong-Kong, Macau e principalmente Taiwan.

Como resultado, nos últimos 30 anos o país tem crescido ininterruptamente numa média que varia de 10% ao ano; deixando, assim, de representar 1% do PIB mundial, no início das reformas, para 4,2% em 2004. Seu comércio exterior cresceu em quase 100 vezes, pois em 1978 seu volume foi de US$ 20,6 bilhões e, em 2007, passou dos US$ 2 trilhões. Desde meados da década de 1990 ela é a maior receptora de capitais produtivos estrangeiros, sendo que em 2006 sua cifra foi de US$ 69,5 bilhões. Suas reservas cambiais em outubro último eram estimadas em US$ 1,45 trilhão.

Notável, também, fora a retirada de pessoas da linha da pobreza. Segundo dados devidamente amplificados pelo Banco Mundial, o número de pessoas abaixo da linha da pobreza na China diminuiu de 490 milhões em 1981 (ou 49% da população) para 88 milhões em 2003 (7% da população).

Houve um aumento de sua influência na economia mundial tão claro a ponto de qualquer mudança que vier a afetá-la internamente pode ser o estopim de grandes repercussões no mercado internacional. No período de 1999 e 2006 seu crescimento correspondeu a 29% do desempenho econômico mundial e, segundo Barros de Castro, se mantidas as taxas de crescimento tanto da China, quanto dos EUA, as duas economias se “encontrariam” em tamanho no espaço de 10 anos. Em 2000, a China representava 3,4% do PIB mundial; 11,6% do PIB calculado sobre a paridade do poder e compra (PPA); 6,6% do consumo de petróleo e 3,9% das exportações mundiais. Já em 2004 (já citado), representou 4,2% do PIB mundial (13,2% em PPA); 8,35 do consumo mundial de petróleo e 6,5% das exportações correntes no mundo. Tais números subiram desde o período, sem sobra alguma para dúvidas.

É grande evidência pressupor que dado o peso histórico, geográfico e populacional da China, esse processo – cujos números citados são expressão – em curso tende a criar uma nova geografia econômica do mundo, para onde se dirigem e saem fluxos financeiros, econômicos, políticos e culturais crescentes. Enfim, um grande imã que atrai e irradia movimentos gravitacionais e que edita uma grande reocupação de espaços perdidos desde o início das agressões estrangeiras em 1839.

Conseqüência desta “reocupação de espaços” é encerrada em seu crescente poderio financeiro como a tábua em que se assenta uma planificação do comércio exterior possibilitadora da implementação de uma convivência imediata com seu principal competidor estratégico que inclui – não espantosamente –, o financiamento dos chamados déficits gêmeos do próprio competidor estratégico. Porém, a grande expressão dessa nova força financeira internacional (lastreada historicamente por uma política comercial milenar e avassaladora) está na possibilidade de proscrição dos principais órgãos financeiros surgidos no âmbito de Bretton Woods, notadamente o FMI e o Banco Mundial – conforme a política africana e latino-americana da China vem demonstrando nos últimos anos.

Confúcio (551-489 a.c.)

A dimensão exata dos limites e contradições
Em momento de grande perplexidade com a velocidade e a forma com que o desenvolvimento muda a face da China, é de bom grado advertir que, ao lado do sucesso e da consolidação de pretensões de ordem mundial, o desenvolvimento na China também guarda sua face dolorosa e eivada de inquietações, que talvez sejam o próprio motor do processo em si. Uma economia em desenvolvimento não resolve problemas sem criar outros maiores, saltando de forma ininterrupta de um desequilíbrio a outro. E a China não foge à regra.

Assim, podemos de imediato relacionar três grandes fontes de limites, que se relacionam, ao processo em andamento na China. Trata-se da relação entre o tamanho de sua população, os recursos existentes em seu território e o modelo clássico de industrialização extensiva. Desta relação podem ser extraídas as principais contradições surgidas nessa esteira desenvolvimentista: a pressão sobre os recursos naturais, as desigualdades sociais e regionais e a danificação ao meio ambiente.

A população chinesa ainda não atingiu seu pico. O início de sua curva decrescente deverá ocorrer por volta de 2030, quando o país poderá chegar a 1,5 bilhão de habitantes. A sua economia corresponde somente a 1/7 da economia norte-americana e a 1/3 da japonesa, o que a coloca – apesar das duplicações do PIB pós-1978 – entre as economias de baixa renda per capita. Com 1/5 da população mundial, a China conta com somente 5% das terras em condições de plantio no planeta. Seus recursos hídricos per capita correspondem somente a 25% da média mundial. Os recursos chineses em petróleo, gás natural, cobre e alumínio per capita são da ordem de 8,3%, 4,1%, 25,5% e 9,7 das respectivas médias mundiais.

No campo de análise da produção industrial e do caráter extensivo caracterizado por um grande aporte de capital e trabalho, em detrimento da incorporação de novas tecnologias, podemos afirmar que esse tipo de produção é grande fonte de contradições, cuja superação é determinada pela incorporação de novos paradigmas tecnológicos capazes de acelerar a produtividade do trabalho. Não somente isso – conforme o desenvolvimento interno do país vem nos mostrando,também é necessário aprofundar a mudança em curso do modelo. O que significa dizer: fortalecimento da demanda interna e das empresas nacionais e lenta diminuição do fator comércio exterior na composição do PIB que passou de 22% em 1992 para a altíssima taxa de 47% em 2006. Significa também demonstrar a pressão sobre os recursos naturais originados desse tipo de organização industrial: atualmente a China necessita de 832 toneladas de petróleo para produzir US$ 1 milhão em riquezas, isto é, quatro vezes mais que os EUA (209 ton.), seis vezes mais que a Alemanha (138 ton.) e sete vezes mais que o Japão (118,8 ton.).

Os impactos ao meio-ambiente de 30 anos de industrialização rápida e ininterrupta também têm sido altos. Por exemplo, 70% das águas subterrâneas do país estão contaminadas, principalmente as localizadas no norte do país onde 60 milhões de pessoas seguem com dificuldade para dispor de água potável. Dezesseis das 20 cidades mais poluídas do mundo localizam-se na China que, por sua vez, ocupa o segundo posto em emissão de dióxido de carbono (apesar de sua emissão per capita ainda ser muito baixa), e o primeiro lugar na emissão de clorofluorebunetos e de dióxido sulfúrico por superfície habitada. Os prejuízos ao país somente no ano de 2005 foram da ordem de US$ 10 bilhões por conta dos efeitos da chuva ácida. Um agravante neste caso deve-se à previsão de crescimento do parque automotivo, que poderá saltar dos 20 milhões de carros em 2004 para 60 milhões em 2010 e a 90 milhões em 2015.

A explosiva, cíclica e milenar questão camponesa
A pressão sobre os recursos e os desequilíbrios ambientais, numa observação mais de fundo, devem ser vistos como parte de um conjunto que envolve a centralidade da questão social na China de hoje. De forma mais aguda e em perspectiva histórica, a questão social na atualidade é sinônimo de questão camponesa. Explosiva, cíclica e milenar, responsável pela queda de simplesmente todas as dinastias, a classe camponesa na China – cuja subjetividade é mediada por um espírito rebelde tipicamente taoísta – é o grande ator político do país e classe pela qual, de tempos em tempos, passa-se o crivo do merecimento ou não do mandato do céu. Eis um dos maiores desafios, de caráter estritamente político, a ser enfrentado pela atual geração dirigente.

Em que pese a grande façanha da inclusão na China, a grande verdade é que o ritmo do nível das desigualdades aumentou substancialmente. Além disso, apesar da pobreza rural ter diminuído, a pobreza urbana aumentou, pois entre 1999 e 2003 a pobreza urbana passou de 11 milhões, ou 2,5% da população, para 23 milhões, ou 4% da população urbana. Voltando à questão do aumento das desigualdades, se tomarmos o quoficiente 20/20 (parte da renda nacional dos 20% mais ricos e 20% mais pobres) perceberemos que o mesmo aumentou de 6,5 em 1990 para 10,6 em 2001. Este dado se confirma se partirmos das bases de cálculo do índice de Gini (10/10): entre 1999 e 2001 os 10% mais ricos passaram a deter de 24,6% para 33,1% da renda nacional. Enfim, a China de hoje é uma das sociedades mais desiguais do mundo.

No que tange às desigualdades regionais, o problema da concentração também é refletido. Entre 1990 e 2002 a renda média das cidades passou de 2,2 para 3,1 vezes mais alta que a do campo. A ampliação da renda rural em 2006 foi de 7,4%, enquanto nas cidades de 10,4%, denunciando – o que é óbvio –, que: as atividades urbanas são mais rentosas que as praticadas no meio rural; e a manutenção das diferenças campo-cidade redundam em cada vez maiores disparidades regionais seja na China, seja no mundo. Daí a necessidade de criar condições políticas, econômicas e infra-estruturais para uma cada vez maior absorção de mão-de-obra sobrante no campo para grandes centros urbanos – sejam eles centros já existentes ou em construção –, pois somente pela via da urbanização essa desigualdade, em médio e longo prazo, poderá ser equalizada.

Leia a matéria completa na Coluna do geógrafo Elias Jabbour

29 de abril de 2008

Energia Renovável - Oceanos (parte II)

Conservação da energia das correntes marítimas

As possibilidades para o equilíbrio com a movimentação das águas podem variar. As hélices são acionadas pelas acelerações que acontecem aleatoriamente na dinâmica das correntes oceânicas.

One the greatest untapped energy resources in the world is the motion of the ocean. And while floating wind turbines and wave-powered generators are being explored throughout the world, there still remains one largely untapped power source, the underwater ocean currents. Well researchers at the Center of Excellence in Ocean Energy Technology have developed what they believe is a technology to allow them to use the Gulf Stream currents that could conceivably cover all of Florida’s energy needs.

The idea is to have underwater turbines placed right in the middle of the Gulf Stream current. The turbines are designed to be about 100 feet in diameter. These will be connected to a buoy that holds the electricity generating equipment. The gulf stream carries billions of gallons per minute, so the impact of these turbines would be minimal if negligible to the current itself.

Now granted, installing all these turbines will take time and significant research, which is why the team is hard at work developing a considerably smaller prototype version that they hope will provide them with enough data to assess whether installing such a system will have an impact in the ocean current, and, just as importantly, all the sealife moving through the area.

Fonte: www.inhabitat.com

27 de abril de 2008

Cuba, China e o "Mal da Discussão Desfocada"

O que a mídia não conta...

...Graças à engenhosidade dos cubanos, aos esforços que contaram com o apoio da população e às novas relações comerciais com países como a Venezuela e a China, Cuba dispõe de uma economia mais forte e conseguiu resolver seu problema energético. Graças à “Revolução energética”, lançada em 2006, que consistiu em substituir as lâmpadas e os antigos eletrodomésticos, como televisores, refrigeradores, ventiladores e outros aparelhos elétricos, por produtos mais modernos cujo consumo é menor, milhões de cubanos foram beneficiados por toda uma gama de produtos eletrodomésticos novos com preços subvencionados pelo Estado, ou seja, abaixo de seu valor de mercado.

Atualmente, a economia de energia que foi conseguida permite enfrentar a demanda da população, o que explica a eliminação progressiva das restrições quanto à aquisição de novos aparelhos eletrodomésticos, computadores e outros, como reprodutores de vídeo. Assim, os cubanos têm acesso a uma seleção mais ampla de bens de consumo. Portanto, as limitações tinham como explicação apenas um fator econômico, isto é, uma produção de energia insuficiente. A imprensa ocidental não se incomodou em abordar estes elementos ao tratar do tema.

A mídia apressou-se em sublinhar, com razão, que muitos cubanos não poderiam ter acesso aos artigos à venda pelo valor de mercado devido ao seu elevado custo com respeito ao salário relativamente modesto vigente em Cuba. Não obstante, esta realidade concerne a uma parte imensa da população mundial, que vive na pobreza e cujas principais preocupações não são adquirir um reprodutor de DVD ou um microondas, mas, sim, comer três vezes por dia e ter acesso a saúde e educação, angústias inexistentes em Cuba.

Assim, segundo o último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sobre a insegurança alimentar no mundo, 854 milhões de pessoas em todo o planeta, entre elas 9 milhões nos países industrializados, sofrem de desnutrição. No continente americano somente três países já alcançaram os objetivos da Cúpula Mundial da Alimentação 2015: Cuba, Guiana e Peru. Segundo a Unesco, atualmente, um de cada cinco adultos no mundo não é alfabetizado, ou seja 774 milhões de pessoas, e 74 milhões de crianças carecem de escolas. Segundo a Unicef, a cada dia mais de 26.000 crianças menores de cinco anos morrem de fome ou de doenças curáveis, ou seja 9,7 milhões de crianças por ano. Nenhum cubano faz parte destas listas...


Confira a matéria completa pelo link abaixo.

Fonte: Agência Carta Maior

Revirando a Teoria diz...

Muito ainda será discutido e registrado pela grande mídia sobre povos como os chineses, indianos e cubanos. Aliás, para os chineses parece que já começou com as declarações de apoio aos Tibetanos e boicote aos eventos da tocha olímpica pelo mundo.

Vai ser imensa a dedicação da imprensa mundial em execrar o estilo de vida e a cultura chinesa de modo geral. O duro é começar engolir qualquer ladainha, tipo "chinês trabalha por qualquer miséria" ou "a China só cresce porque tem mão-de-obra barata", e por aí vai.

Mas então, quais as questões e assuntos que realmente devem ser debatidos??
Por exemplo:
1) Quais mecanismos a China utiliza para incorporar a gestão e a tecnologia das multinacionais?
2) Como o Estado Chinês atua na determinação das políticas fiscais e monetárias que regem essa economia que cresce, em média, quase 10% ao ano?
3) Como funcionam os instrumentos de distribuição de conhecimento e de renda na China?
4) Como se organizam e se relacionam o povo chinês? Será que o fato de serem budistas e confucionistas alteram seus princípios e suas manifestações culturais?

A verdade é que a mídia está e estará evitando uma discussão como essa. Isso, por opção mesmo, como já sabemos. Esse câncer costuma ser lembrado nos artigos do jornalista Luis Nassif e do geógrafo Elias Jabbour e aqui vamos nomeá-lo de "Mal da Discussão Desfocada" ou, porque não, de "Doença da Discussão Desfocada".

Atinge quase a totalidade dos brasileiros. Na verdade, é crônica principalmente nas pessoas que costumam formar sua opinião embasados numa notícia da Globo, da Veja, da Folha, do Estadão e cia. Ou seja, quase o país inteiro. O "MDD" estraga todas as tentativas de entendimento e conciliação política entre amigos num bar, por exemplo.

Entretanto, é fato que a liderança econômica chinesa tende a se firmar em longo prazo. A capacidade do modelo de organização do povo chinês será posta à prova contra o modelo de desenvolvimento capitalista vigente. Talvez seja necessária uma nova roupagem, pois o debate capitalismo versus socialismo foi o mais prejudicado pelo "MDD", e as definições tanto de socialismo quanto de Estado Socialista perderam seu sentido original e hoje estão indissociáveis do socialismo da URSS. Falar em socialismo é lembrar daquela época e daquela história. Ninguém sabe o que veio antes nem depois, "...sabe-se que não deu certo, e pronto".

Daqui pra frente, vai ser comum a grande mídia caracterizar o modelo chinês como capitalista. É nesse momento que se faz necessário retomar as definições de mercado de exportações, socialismo de mercado e economia planificada. O modelo de crescimento da China pode ser muita coisa, mas simplesmente capitalista não é. A reforma agrária chinesa aconteceu na década de 70 com Deng Xiaoping. A infra-estrutura industrial foi armada já faz algum tempo, por meio de uma série de mecanismos de relacionamento interno e integração nacional. Mas o dado que fala por si é: das 500 maiores empresas chinesas, mais de 400 são estatais.

Haverá dedicação intensa da grande mídia em ocultar as características e as ações de caráter socialista que vêm sendo realizadas na China. Além, de aos poucos ir misturando definições básicas de uma discussão, assim torna-se impossível diferenciar conceitos simples como modelo de produção capitalista e modelo de produção para exportação. É esse mecanismo que fomenta o "MDD" nas pessoas e, até mesmo, em nossos amigos e parentes. O "MDD" é perigosíssimo, pode-se passar horas em debates calorosos sem resultar num aprendizado decente.

26 de abril de 2008

Zaha Hadid e as críticas

Toda arte é construída por pessoas. Muitos são seguidores de tudo aquilo já observado e registrado. Outros seres humanos não, possuem um dom genial em alguma determinada área, são os mestres. É comum o Revirando a Teoria mencionar a importância e os feitos dos mestres. Entretanto, uma investigação mais cuidadosa sobre o mundo da arquitetura pode nos revelar uma faceta estranha, ou até mesmo vulgar, daqueles que constituem esse universo - os arquitetos.

Não é raro encontrar críticas ferrenhas até mesmo aos mais criativos no assunto, como a conhecida iraquiana Zaha Hadid. E olha que esse blog adora criticar tudo, mas criticar essa mulher é o mesmo que um escritor falar mal do Guimarães Rosa, ou um pintor criticar o Salvador Dali, ou um violonista criticar o Yamandú. Pegou?

Sendo assim, o
Revirando a Teoria resolveu postar mais três projetos recentes da mulher. Em suma, "See for yourself!!"

1) Performing Arts Centre in Abu Dhabi

The Performing Arts Center will be part of a multi-billion dollar cultural district with other buildings by Frank Gehry, Jean Nouvel, and Tadao Ando. In her own words, Zaha Hadid describes the structure as a “biological analogy” whose primary components (branches, stems, fruits, and leaves) are then “transformed from these abstract diagrams into architectonic design.” We can only hope that such poetic biomimicry will be translated into green functions, materials, and technologies as well.



2) Guggenheim Hermitage Museum in Vilnius, Lithuania

The museums sculptural volume is designed along Zaha Hadid’s characteristic conceptual terms of fluidity, velocity and lightness. The building appears like a mystical object floating above the extensive artificial landscape strip, seemingly defying gravity by exposing dramatic undercuts towards the surrounding entrance plazas. Large activated green fields flow around the museums sculptural mass, underlining its enigmatic presence with curvilinear lines echoing the elongated contours of the building. Contrasting with the vertical business district skyline it is a manifestation of Vilnius’ new cultural significance.

A glossy metallic building envelope registers the underlying main programmatic units which are articulated as inlays within the compact overall form. The sub volumes are expressed through folds and protrusions in the facades modulation, creating multiple ways of reading the building as a whole that is constituted by its integral parts. These parts reflect the various institutions and bodies that are combined within the museum, such as the Hermitage, the Guggenheim as well as the city of Vilnius. In the interior a canyon like air space allows for architecturally refined communication and circulation spaces mirroring the Fluxus spirit of informality and vivacity surrounding art.


Video do Guggenheim Hermitage Museum na Lituânia:


3) Civil Court in Madrid

The building will become a significant focal point in the masterplan for the city’s Campus de la Justicia area. It is of course the intelligent façade that caught our eye with this design. Made of metallic panels, this double-ventilated envelope is a dynamic, moving component that will respond to the environment by opening and closing. We only have an abstract understanding based on the architect’s website, but it sounds like heating, cooling and ventilation will all be moderated and control through this intelligent façade. On the roof, these metal panels will include integrate photovoltaic cells.

The proposed 74,500 square meter (~800,000 square foot) building features a spiraling semi-circular atrium that overlooks an interior public courtyard. This space is meant to draw visitors and connect the building with the surrounding campus. The atrium also brings natural light down through the building and into court rooms.

The project is slated for completion within two years and, as with all of Hadid's extreme design, we definitely plan to follow the progress and check it out in its final form. Always interesting and thought provoking (both good and bad), there is something about the work of this architect that just keeps her in our sights. It will be interesting to see if her latest design for Madrid takes shape with sustainability in mind.


Video do projeto da Corte Civil de Madrid:

25 de abril de 2008

Paul Singer e a Economia Solidária

A Economia Solidária é uma alternativa ao modelo de organizações "capitalistas" em vigor. Na economia solidária não existem patrões e empregados, todos são donos e funcionários do negócio, e o objetivo principal não é a geração de lucro, mas sim a melhoria da vida dos membros do empreendimento solidário. O conceito de Economia Solidária, apresentado abaixo, foi desenvolvido por Paul Singer:

"Economia Solidária é uma forma de produção, consumo e distribuição de riqueza (economia) centrada na valorização do ser humano - e não do capital - de base associativista e cooperativista, voltada para a produção, consumo e comercialização de bens e serviços, de modo autogerido, tendo como finalidade a reprodução ampliada da vida. Assim, nesta economia, o trabalho se transforma num meio de libertação humana dentro de um processo de democratização econômica, criando uma alternativa à dimensão alienante e assalariada das relações do trabalho capitalista."

Campanha Nacional de Divulgalção da Economia Solidária






Introdução da entrevista de Paul Singer para Paulo Donizetti de Souza publicada na Revista Brasil (leia a entrevista aqui)
Paul Singer figura, possivelmente, entre os mais conceituados intelectuais do Brasil. Sua obra é ingrediente obrigatório na biblioteca de quem queira entender o Brasil. Com a fala serena de um mestre, Singer fala de seu país
com a coerência que o acompanha em mais de meio século de militância política de esquerda. Critica com pesar, mas sem meias palavras, os rumos da economia. Fala dos vacilos do governo e do PT; e torce pela reeleição de Lula.
Esse brasileiro nascido na Áustria há 74 anos já foi metalúrgico (eletrotécnico), é um dos fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) junto com intelectuais da academia perseguidos pelo regime militar. Professor da Unesp e da FEA/USP, foi secretário de Planejamento paulistano na gestão de Luiza Erundina e, desde 2003, comanda a Secretaria Nacional de Economia Solidária criada pelo atual governo dentro do Ministério do Trabalho. Para Paul Singer, a economia solidária não é mera alternativa para gerar ocupação em tempos de crise, como pensam alguns, mas uma ferramenta de construção de um novo modelo econômico pautado pelo humanismo, a justiça social, a cooperação mútua e a solidariedade.

Entrevista com Paul Singer (Trecho do documentário "A Cura" de David Calderoni)



Links relacionados:
Paul Singer na wikipedia
Economia Solidária na wikipédia
Fórum Brasileiro de Economia Solidária
Ecosol
Secretaria Nacional de Economia Solidária
Estudo sobre Paul Singer

Patch Adams - o sábio

Dia 05 de Novembro de 2007 aconteceu o Roda Viva da TV Cultura com o médico revolucionário Patch Adams - na verdade, um mestre da sabedoria!!... Programa memorável.

Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 1

Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 2
Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 3
Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 4
Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 5


Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 6 ---> A revelação:


Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 7
Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 8
Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 9
Patch Adams Roda-Viva 2007 - parte 10 - Final

Patch Adams dá uma aula de história e política. Em todos os momentos da entrevista, o médico tentou conduzir a conversa para temas críticos - como o jogo midiático, as imposições econômicas sobre o Terceiro Mundo e o questionamento do arranjo social contemporâneo - que realmente devem ser debatidos pela mídia.

24 de abril de 2008

Carta da Terra

PREÂMBULO
Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que, nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.

Terra, Nosso Lar
A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.

A Situação Global
Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos eqüitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e é causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.

Desafios Para o Futuro
A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que quando as necessidades básicas forem atingidas, o desenvolvimento humano é primariamente ser mais, não, ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios, ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos forjar soluções includentes.

Responsabilidade Universal
Para realizar estas aspirações devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre bem como com nossa comunidade local. Somos ao mesmo tempo cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual, a dimensão local e global estão ligadas. Cada um comparte responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem estar da família humana e do grande mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo presente da vida, e com humildade considerando o lugar que ocupa o ser humano na natureza.
Necessitamos com urgência de uma visão de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à emergente comunidade mundial. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, todos interdependentes, visando um modo de vida sustentável como critério comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas de negócios, governos, e instituições transnacionais será guiada e avaliada.

PRINCÍPIOS

I. RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DE VIDA
1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.
a. Reconhecer que todos os seres são interligados e cada forma de vida tem valor, independentemente do uso humano.
b. Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.
2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.
a. Aceitar que com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais vem o dever de impedir o dano causado ao meio ambiente e de proteger o direito das pessoas.
b. Afirmar que, o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder comporta responsabilidade na promoção do bem comum.
3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas.
a. Assegurar que as comunidades em todos níveis garantam os direitos humanos e as liberdades fundamentais e dar a cada a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
b. Promover a justiça econômica propiciando a todos a consecução de uma subsistência significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.
4. Garantir a generosidade e a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações.
a. Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
b. Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apóiem, a longo termo, a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da Terra.
Para poder cumprir estes quatro extensos compromissos, é necessário:

II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA
5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida.
a. Adotar planos e regulações de desenvolvimento sustentável em todos os níveis que façam com que a conservação ambiental e a reabilitação sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
b. Estabelecer e proteger as reservas com uma natureza viável e da biosfera, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
c. Promover a recuperação de espécies e ecossistemas em perigo.
d. Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente que causem dano às espécies nativas, ao meio ambiente, e prevenir a introdução desses organismos daninhos.
e. Manejar o uso de recursos renováveis como a água, solo, produtos florestais e a vida marinha com maneiras que não excedam as taxas de regeneração e que protejam a sanidade dos ecossistemas.
f. Manejar a extração e uso de recursos não renováveis como minerais e combustíveis fósseis de forma que diminua a exaustão e não cause sério dano ambiental.
6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e quando o conhecimento for limitado, tomar o caminho da prudência.
a. Orientar ações para evitar a possibilidade de sérios ou irreversíveis danos ambientais mesmo quando a informação científica seja incompleta ou não conclusiva.
b. Impor o ônus da prova àqueles que afirmam que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que os grupos sejam responsabilizados pelo dano ambiental.
c. Garantir que a decisão a ser tomada se oriente pelas conseqüências humanas globais, cumulativas, de longo termo, indiretas e de longa distância.
d. Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
e. Evitar que atividades militares causem dano ao meio ambiente.
7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.
a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
b. Atuar com restrição e eficiência no uso de energia e recorrer cada vez mais aos recursos energéticos renováveis como a energia solar e do vento.
c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologias ambientais saudáveis.
d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar aos consumidores identificar produtos que satisfaçam as mais altas normas sociais e ambientais.
e. Garantir acesso universal ao cuidado da saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e o suficiente material num mundo finito.
8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e uma ampla aplicação do conhecimento adquirido.
a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuem para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, estejam disponíveis ao domínio público.

III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA
9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social, econômico e ambiental.
a. Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, distribuindo os recursos nacionais e internacionais requeridos.
b. Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma subsistência sustentável, e dar seguro social [médico] e segurança coletiva a todos aqueles que não são capazes de manter-se a si mesmos.
c. Reconhecer ao ignorado, proteger o vulnerável, servir àqueles que sofrem, e permitir-lhes desenvolver suas capacidades e alcançar suas aspirações.
10. Garantir que as atividades econômicas e instituições em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável.
a. Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro e entre nações.
b. Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em desenvolvimento e aliviar as dívidas internacionais onerosas.
c. Garantir que todas as transações comerciais apóiem o uso de recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas laborais progressistas.
d. Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionais atuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelas conseqüências de suas atividades.
11. Afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, ao cuidado da saúde e às oportunidades econômicas.
a. Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
b. Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiros plenos e paritários, tomadores de decisão, líderes e beneficiários.
c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e a criação amorosa de todos os membros da família.
12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social, capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, dando especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.
a. Eliminar a discriminação em todas suas formas, como as baseadas na raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
b. Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas a formas sustentáveis de vida.
c. Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os para cumprir seu papel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
d. Proteger e restaurar lugares notáveis, de significado cultural e espiritual.

IV.DEMOCRACIA, NÃO VIOLÊNCIA E PAZ
13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, a participação inclusiva na tomada de decisões e no acesso à justiça.
a. Defender o direito a todas as pessoas de receber informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que poderiam afetá-las ou nos quais tivessem interesse.
b. Apoiar sociedades locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações na toma de decisões.
c. Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de assembléia pacífica, de associação e de oposição [ou discordância].
d. Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos administrativos e judiciais independentes, incluindo mediação e retificação dos danos ambientais e da ameaça de tais danos.
e. Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
f. Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus próprios ambientes e designar responsabilidades ambientais a nível governamental onde possam ser cumpridas mais efetivamente.
14. Integrar na educação formal e aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.
a. Oferecer a todos, especialmente a crianças e a jovens, oportunidades educativas que possibilite contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
b. Promover a contribuição das artes e humanidades assim como das ciências na educação sustentável.
c. Intensificar o papel dos meios de comunicação de massas no sentido de aumentar a conscientização dos desafios ecológicos e sociais.
d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma subsistência sustentável.
15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.
a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e diminuir seus sofrimentos.
b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento externo, prolongado o evitável.
16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz.
a. Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
b. Implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para manejar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
c. Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até chegar ao nível de uma postura não-provocativa da defesa e converter os recursos militares em propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
d. Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição em massa.
e. Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico mantenha a proteção ambiental e a paz.
f. Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.

O CAMINHO ADIANTE
Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Tal renovação é a promessa dos princípios da Carta da Terra. Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover os valores e objetivos da Carta.
Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa, e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos aprofundar e expandir o diálogo global gerado pela Carta da Terra, porque temos muito que aprender a partir da busca iminente e conjunta por verdade e sabedoria.
A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Porém, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade têm um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.
Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional legalmente unificador quanto ao ambiente e ao desenvolvimento.

Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida.