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6 de maio de 2008

Por que o Brasil é um cassino financeiro?

Setor privado mantém altas taxas de captação de recursos externos e ganha emprestando esse mesmo dinheiro aos brasileiros, a juros mais elevados.


A expressiva diferença entre a elevada taxa de juros da economia brasileira e as pequenas taxas dos países ricos está turbinando o lucro dos bancos e das transnacionais no país. Captando recurso no exterior a um custo baixo e, depois, cobrando dos consumidores brasileiros uma taxa maior, grandes empresas ampliam seu resultado financeiro às custas de um modelo que eleva a vulnerabilidade do país e, em última análise, penaliza o trabalhador.

Isso tem ocorrido mesmo em um cenário teoricamente adverso para as captações externas, com a crise do setor financeiro internacional. Números do primeiro trimestre deste ano confirmam esse movimento expressivo de captações externas dos grupos privados. Segundo o Banco Central, as empresas trouxeram do exterior 4,680 bilhões de dólares. No mesmo período de 2007, foram 5,097 bilhões. Esses valores são bem superiores às necessidades de financiamento externo dos grupos privados. Também no primeiro trimestre deste ano, a dívida do setor privado estava em 1,907 bilhões de dólares, mas teve uma taxa de rolagem de 231%. Ou seja, o setor privado tomou no exterior muito mais dinheiro do que em tese precisaria.


Empréstimos pessoais

Todo esse ingresso de recursos externos tem impulsionado a ampliação de oferta de crédito aos consumidores brasileiros. Como, hoje, o Brasil possui a mais alta taxa de juros real do mundo (7,25% ao ano), o montante obtido pelos bancos devido às diferenças entre as taxas garantem a eles enormes lucros. “As taxas de juros do cheque especial e do crédito pessoal, por exemplo, na melhor das ofertas cobra 2% ao mês de juros. Se eles captam a 2% ao ano, você imagina a diferença de que os bancos se apropriam, isso sem contar as taxas bancárias. Seja qual for o destino desse dinheiro no Brasil, os lucros que eles conseguem aplicando esse dinheiro é enorme”, explica Leda Paulani, economista da Universidade de São Paulo (USP).

O alto ritmo de crescimento dos créditos para pessoas físicas corrobora essa visão. Em 2007, a concessão de crédito a pessoas físicas cresceu 33,7%. E a expectativa do Banco Central para este ano é que haja um aumento de cerca de 20% para o setor. Para se ter uma idéia do ritmo desse crescimento, o Grupo Itaú, que em 2007 se destacou como o maior coordenador de captações externas, trouxe 1,199 bilhões de dólares ao Brasil, contra 434 milhões de dólares que tinha captado em 2006.

Já as captações feitas por empresas tanto são utilizadas para realizar movimentações no mercado financeiro, com compra de ações ou títulos da dívida pública brasileira, por exemplo, como para investimentos e aquisições. Esse foi o caso da mineradora Vale que, no final de 2006, fez um empréstimo de 13,7 bilhões de dólares para financiar a compra da produtora de níquel canadense Inco, operação importante que ajudou a levar a empresa ao posto de segunda maior mineradora do mundo.


Rendimentos recordes

Reinaldo Gonçalves explica que, a princípio, a grande oferta de créditos pelos bancos beneficia o trabalhador, que consegue realizar operações a juros mais baixos. “Por isso que, aqui, você financia carros em 72 meses com uma taxa de juros baixa nos padrões brasileiros”, explica o economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entretanto, quem sai verdadeiramente fortalecido com esse modelo econômico são os bancos e as transnacionais. Os lucros dos bancos em 2007 confirmam a visão do economista: o Itaú, segundo maior banco privado brasileiro, teve, no primeiro semestre de 2007, o maior lucro semestral já registrado por um banco brasileiro, R$ 4,016 bilhões. Já o Bradesco anunciou ganhos de R$ 4,007 bilhões no mesmo período.

Quando questionado, na época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a lucratividade foi decorrente do crescimento do crédito no país. "Vocês vão perceber que o crédito cresceu, mais que quadruplicou, desde o consignado ao crédito para as empresas”, disse, em agosto de 2007.

Fonte: Agência Brasil de Fato


Comentário: O mecanismo utilizado é bem simples. A taxa de juros de um banco no Japão por exemplo, é aproximadamente 2% a.a., já no Brasil fica em torno de 7,25% a.a.. Aí é fácil. Se você é rico, vai lá no banco japonês empresta com juros bem baixos, traz o dinheiro pra cá, ganha absurdos em juros dos pobres brasileiros e ainda é bem visto pela sociedade por isso.
É assim que desde o governo FHC é feita a manutenção da mesma ordem social no país, pois além de criar oportunidades milionárias somente para os muito ricos, impede o acesso fácil ao crédito às classes média e baixa.

5 de maio de 2008

Os grandes desafios de nosso tempo

No plano econômico estamos à beira de uma recessão econômica internacional que começou nos Estados Unidos e está se refletindo na Europa e no resto do planeta. No plano político, os grandes problemas que afetam o mundo ainda não encontram uma resposta global. Existe um grave vazio na ordem mundial. A análise é do ex-presidente de Portugal, Mario Soares.
LISBOA - O mundo – e o Ocidente, em particular – estão atravessando uma fase de transição e de grande insegurança, que, por se manifestar em diferentes planos, torna imprevisíveis os próximos tempos. No plano econômico estamos à beira de uma recessão econômica internacional que começou nos Estados Unidos e está se refletindo na Europa e no resto do planeta. Ainda não sabemos se irá se agravar ou começará a ser superada, o que não depende apenas do Ocidente, mas também de múltiplos fatores internacionais, como o aumento ou a baixa dos preços do petróleo, ou o comportamento das economias emergentes.

O capitalismo especulativo está em um pantanal, já que a economia especulativa tem hoje pouco a ver com a economia real. Cria-se e perde-se grandes fortunas nos paraísos fiscais, onde circula impunemente o chamado dinheiro sujo, proveniente da droga e de outros comércios ilícitos (tráfico ilegal de armas, de órgãos humanos, da prostituição, etc) enquanto a economia real está gerando desemprego, paralisação econômica, inflação, crise na bolsa e no crédito imobiliário, irregularidades e quebras de instituições bancárias e de seguros ate agora consideradas intocáveis.

Por sua vez, as organizações financeiras internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional – que não dependem, como deveria ser, das Nações Unidas – se mostram obsoletas e incapazes de enfrentar a crise financeira em curso. O mesmo se pode dizer da Organização Mundial do Comercio – também fora do âmbito da ONU – onde os necessários consensos com os países emergentes e em desenvolvimento são cada vez mais difíceis de serem estabelecidos.

Nestes tempos de globalização – não apenas econômica, mas também científica, tecnológica, informática e de um novo fenômeno que é a nascente formação de uma opinião pública mundial – os grandes problemas que afetam o mundo ainda não encontram uma resposta global, que apenas poderia consistir em uma profunda reestruturação da ONU e de seu Conselho de Segurança. E o G-8, que agrupa as maiores potências, não passa de um diretório das nações ricas, carente de legitimidade para orientar o mundo, como mostra a experiência dos últimos anos. Existe, portanto, um grave vazio na ordem mundial.

Quais são os maiores problemas que afetam o mundo contemporâneo e que, se não forem resolvidos em um prazo razoável envolvem uma ameaça para a humanidade? Enumero por ordem de importância. Em primeiro lugar as mais graves questões ambientais? O buraco na camada de ozônio, o aquecimento da Terra e as mudanças climáticas, a contaminação da água e do lençol freático, a desertificação, a redução da biodiversidade, o progressivo desaparecimento das florestas, a degradação urbana.

A fome e a pobreza endêmica que afetam mais de dois terços da população mundial apesar de a ciência e a tecnologia disporem de recursos para eliminar facilmente esses problemas com a condição de que haja vontade política para enfrentá-los. A violência – fomentada pela violência cotidiana propagada pelos meios de comunicação – os conflitos, as guerras, o comércio ilimitado de armas e a corrida armamentista nuclear às quais são incapazes de por um freio as potências e as instituições internacionais.

As pandemias com a da Aids e outras doenças que haviam sido erradicadas e que ressurgem, com a tuberculose, a malária e outros desafios que somente podem ter uma resposta global. O fanatismo religioso e político, a perda de valores nas sociedades consumistas e hedonistas de nosso tempo, o desprezo pelos problemas sociais, ambientais e pelos direitos humanos.

Tudo isto forma uma profunda crise mundial, comparável à vivida no começo da Segunda Guerra Mundial, depois das avassaladoras vitórias militares de Hitler e do imperialismo japonês, quando alguns pessimistas vislumbravam “um retrocesso de mil anos”. Mas nessa oportunidade, como agora, não podemos – nem devemos – perder a esperança e deixar de lutar pelos valores do humanismo universal.

A ordem mundial é novamente multilateral. O império norte-americano como tal está em vias de desaparecer. As soluções para os problemas que enfrentamos não dependem apenas, como se pensava no começo deste século, do Ocidente (Estados Unidos e Europa). Hoje também contam os chamados países emergentes, Brasil, Rússia, China e India – e outros mais como Japão, México, África do Sul, Irã, Egito e Turquia. Isto quer dizer que o Ocidente deve entender que tem de negociar com esses países, bem como ajudar na reforma da ONU se quer realmente enfrentar os grandes desafios de nosso tempo.

Muito depende ainda dos Estados Unidos e de seu próximo presidente. Seja quem for, terá que mudar radicalmente as políticas interna e externa de Washington, se quiser evitar que sua nação entre em decadência. Por sua vez, a União Européia deve ter a coragem de definir uma estratégia autônoma e indicar o rumo que seguirá nos próximos anos na esfera institucional e como ator global no cenário internacional.

Fonte: Agência Carta Maior


Comentários: Acrescentaria ainda a essa lista do ex-presidente português a Coréia do Sul , se não agora, com certeza em longo prazo.

Parte da decadência norte-americana deve vir a ser confirmada por meio de mudanças reais de postura e de rigidez nos acordos econômicos de forma geral, principalmente em conferências de negócio como Davos e OMC. Infelizmente, tais encontros ditam as regras comerciais no mundo, influenciam o arranjo das políticas fiscais dos países participantes e impedem de modo direto o crescimento dos países do Terceiro Mundo, como já é sabido.

O problema agora para os EUA é descobrir quem no mundo quer estar próximo duma economia em chamas???

“Conceito Científico” e os desafios do desenvolvimento na China de hoje

Texto-base de Elias Jabbour da apresentação “Conferência sobre a China” organizada pela Fundação Alexandre Gusmão e o Ministério das Relações Exteriores que ocorreu nos dias 17 e 18 de abril no Palácio Itamaraty (Rio de Janeiro) e que contou com a presença de cerca de duas dezenas de intelectuais entre eles brasileiros, argentinos, chineses e norte-americanos.

O “desenvolvimentismo com características chinesas”

Baseada uma grande autoconfiança num mundo de turbulências e mudanças drásticas, sendo a principal delas a desagregação da URSS e a conseqüente débâcle do sistema socialista mundial, a governança chinesa fez a correta escolha soberana – portanto, fora dos esquemas estratégicos dos EUA, como o fez a América Latina na década de 1990 –, de navegar no mar da “globalização” como forma de alcançar o objetivo de reprojetamento da China ao rol das grandes nações em um mundo marcado pelo rápido desenvolvimento das forças produtivas e pela existência de grandes potências.

Assim, e após o diagnóstico acerca da improbabilidade de uma 3ª Guerra Mundial envolvendo o capitalismo e o socialismo, a consecução dos citados objetivos centrou-se em uma participação ativa no já referido processo de “globalização”. Para tanto, fez praticar uma retificação de curso amplamente baseada tanto na capacidade milenar de comércio e de acumulação do camponês médio chinês (reconstruindo, assim, o pacto de poder vitorioso em 1949), quanto na constituição de um círculo internacional chinês espalhado pelo Sudeste Asiático. Círculo com poder financeiro suficiente para carrear ao continente seus excedentes, viabilizando, assim, tanto o financiamento externo da modernização e a indigenização de avançadas técnicas modernas de administração, quanto a solução de pendências históricas como Hong-Kong, Macau e principalmente Taiwan.

Como resultado, nos últimos 30 anos o país tem crescido ininterruptamente numa média que varia de 10% ao ano; deixando, assim, de representar 1% do PIB mundial, no início das reformas, para 4,2% em 2004. Seu comércio exterior cresceu em quase 100 vezes, pois em 1978 seu volume foi de US$ 20,6 bilhões e, em 2007, passou dos US$ 2 trilhões. Desde meados da década de 1990 ela é a maior receptora de capitais produtivos estrangeiros, sendo que em 2006 sua cifra foi de US$ 69,5 bilhões. Suas reservas cambiais em outubro último eram estimadas em US$ 1,45 trilhão.

Notável, também, fora a retirada de pessoas da linha da pobreza. Segundo dados devidamente amplificados pelo Banco Mundial, o número de pessoas abaixo da linha da pobreza na China diminuiu de 490 milhões em 1981 (ou 49% da população) para 88 milhões em 2003 (7% da população).

Houve um aumento de sua influência na economia mundial tão claro a ponto de qualquer mudança que vier a afetá-la internamente pode ser o estopim de grandes repercussões no mercado internacional. No período de 1999 e 2006 seu crescimento correspondeu a 29% do desempenho econômico mundial e, segundo Barros de Castro, se mantidas as taxas de crescimento tanto da China, quanto dos EUA, as duas economias se “encontrariam” em tamanho no espaço de 10 anos. Em 2000, a China representava 3,4% do PIB mundial; 11,6% do PIB calculado sobre a paridade do poder e compra (PPA); 6,6% do consumo de petróleo e 3,9% das exportações mundiais. Já em 2004 (já citado), representou 4,2% do PIB mundial (13,2% em PPA); 8,35 do consumo mundial de petróleo e 6,5% das exportações correntes no mundo. Tais números subiram desde o período, sem sobra alguma para dúvidas.

É grande evidência pressupor que dado o peso histórico, geográfico e populacional da China, esse processo – cujos números citados são expressão – em curso tende a criar uma nova geografia econômica do mundo, para onde se dirigem e saem fluxos financeiros, econômicos, políticos e culturais crescentes. Enfim, um grande imã que atrai e irradia movimentos gravitacionais e que edita uma grande reocupação de espaços perdidos desde o início das agressões estrangeiras em 1839.

Conseqüência desta “reocupação de espaços” é encerrada em seu crescente poderio financeiro como a tábua em que se assenta uma planificação do comércio exterior possibilitadora da implementação de uma convivência imediata com seu principal competidor estratégico que inclui – não espantosamente –, o financiamento dos chamados déficits gêmeos do próprio competidor estratégico. Porém, a grande expressão dessa nova força financeira internacional (lastreada historicamente por uma política comercial milenar e avassaladora) está na possibilidade de proscrição dos principais órgãos financeiros surgidos no âmbito de Bretton Woods, notadamente o FMI e o Banco Mundial – conforme a política africana e latino-americana da China vem demonstrando nos últimos anos.

Confúcio (551-489 a.c.)

A dimensão exata dos limites e contradições
Em momento de grande perplexidade com a velocidade e a forma com que o desenvolvimento muda a face da China, é de bom grado advertir que, ao lado do sucesso e da consolidação de pretensões de ordem mundial, o desenvolvimento na China também guarda sua face dolorosa e eivada de inquietações, que talvez sejam o próprio motor do processo em si. Uma economia em desenvolvimento não resolve problemas sem criar outros maiores, saltando de forma ininterrupta de um desequilíbrio a outro. E a China não foge à regra.

Assim, podemos de imediato relacionar três grandes fontes de limites, que se relacionam, ao processo em andamento na China. Trata-se da relação entre o tamanho de sua população, os recursos existentes em seu território e o modelo clássico de industrialização extensiva. Desta relação podem ser extraídas as principais contradições surgidas nessa esteira desenvolvimentista: a pressão sobre os recursos naturais, as desigualdades sociais e regionais e a danificação ao meio ambiente.

A população chinesa ainda não atingiu seu pico. O início de sua curva decrescente deverá ocorrer por volta de 2030, quando o país poderá chegar a 1,5 bilhão de habitantes. A sua economia corresponde somente a 1/7 da economia norte-americana e a 1/3 da japonesa, o que a coloca – apesar das duplicações do PIB pós-1978 – entre as economias de baixa renda per capita. Com 1/5 da população mundial, a China conta com somente 5% das terras em condições de plantio no planeta. Seus recursos hídricos per capita correspondem somente a 25% da média mundial. Os recursos chineses em petróleo, gás natural, cobre e alumínio per capita são da ordem de 8,3%, 4,1%, 25,5% e 9,7 das respectivas médias mundiais.

No campo de análise da produção industrial e do caráter extensivo caracterizado por um grande aporte de capital e trabalho, em detrimento da incorporação de novas tecnologias, podemos afirmar que esse tipo de produção é grande fonte de contradições, cuja superação é determinada pela incorporação de novos paradigmas tecnológicos capazes de acelerar a produtividade do trabalho. Não somente isso – conforme o desenvolvimento interno do país vem nos mostrando,também é necessário aprofundar a mudança em curso do modelo. O que significa dizer: fortalecimento da demanda interna e das empresas nacionais e lenta diminuição do fator comércio exterior na composição do PIB que passou de 22% em 1992 para a altíssima taxa de 47% em 2006. Significa também demonstrar a pressão sobre os recursos naturais originados desse tipo de organização industrial: atualmente a China necessita de 832 toneladas de petróleo para produzir US$ 1 milhão em riquezas, isto é, quatro vezes mais que os EUA (209 ton.), seis vezes mais que a Alemanha (138 ton.) e sete vezes mais que o Japão (118,8 ton.).

Os impactos ao meio-ambiente de 30 anos de industrialização rápida e ininterrupta também têm sido altos. Por exemplo, 70% das águas subterrâneas do país estão contaminadas, principalmente as localizadas no norte do país onde 60 milhões de pessoas seguem com dificuldade para dispor de água potável. Dezesseis das 20 cidades mais poluídas do mundo localizam-se na China que, por sua vez, ocupa o segundo posto em emissão de dióxido de carbono (apesar de sua emissão per capita ainda ser muito baixa), e o primeiro lugar na emissão de clorofluorebunetos e de dióxido sulfúrico por superfície habitada. Os prejuízos ao país somente no ano de 2005 foram da ordem de US$ 10 bilhões por conta dos efeitos da chuva ácida. Um agravante neste caso deve-se à previsão de crescimento do parque automotivo, que poderá saltar dos 20 milhões de carros em 2004 para 60 milhões em 2010 e a 90 milhões em 2015.

A explosiva, cíclica e milenar questão camponesa
A pressão sobre os recursos e os desequilíbrios ambientais, numa observação mais de fundo, devem ser vistos como parte de um conjunto que envolve a centralidade da questão social na China de hoje. De forma mais aguda e em perspectiva histórica, a questão social na atualidade é sinônimo de questão camponesa. Explosiva, cíclica e milenar, responsável pela queda de simplesmente todas as dinastias, a classe camponesa na China – cuja subjetividade é mediada por um espírito rebelde tipicamente taoísta – é o grande ator político do país e classe pela qual, de tempos em tempos, passa-se o crivo do merecimento ou não do mandato do céu. Eis um dos maiores desafios, de caráter estritamente político, a ser enfrentado pela atual geração dirigente.

Em que pese a grande façanha da inclusão na China, a grande verdade é que o ritmo do nível das desigualdades aumentou substancialmente. Além disso, apesar da pobreza rural ter diminuído, a pobreza urbana aumentou, pois entre 1999 e 2003 a pobreza urbana passou de 11 milhões, ou 2,5% da população, para 23 milhões, ou 4% da população urbana. Voltando à questão do aumento das desigualdades, se tomarmos o quoficiente 20/20 (parte da renda nacional dos 20% mais ricos e 20% mais pobres) perceberemos que o mesmo aumentou de 6,5 em 1990 para 10,6 em 2001. Este dado se confirma se partirmos das bases de cálculo do índice de Gini (10/10): entre 1999 e 2001 os 10% mais ricos passaram a deter de 24,6% para 33,1% da renda nacional. Enfim, a China de hoje é uma das sociedades mais desiguais do mundo.

No que tange às desigualdades regionais, o problema da concentração também é refletido. Entre 1990 e 2002 a renda média das cidades passou de 2,2 para 3,1 vezes mais alta que a do campo. A ampliação da renda rural em 2006 foi de 7,4%, enquanto nas cidades de 10,4%, denunciando – o que é óbvio –, que: as atividades urbanas são mais rentosas que as praticadas no meio rural; e a manutenção das diferenças campo-cidade redundam em cada vez maiores disparidades regionais seja na China, seja no mundo. Daí a necessidade de criar condições políticas, econômicas e infra-estruturais para uma cada vez maior absorção de mão-de-obra sobrante no campo para grandes centros urbanos – sejam eles centros já existentes ou em construção –, pois somente pela via da urbanização essa desigualdade, em médio e longo prazo, poderá ser equalizada.

Leia a matéria completa na Coluna do geógrafo Elias Jabbour

27 de abril de 2008

Cuba, China e o "Mal da Discussão Desfocada"

O que a mídia não conta...

...Graças à engenhosidade dos cubanos, aos esforços que contaram com o apoio da população e às novas relações comerciais com países como a Venezuela e a China, Cuba dispõe de uma economia mais forte e conseguiu resolver seu problema energético. Graças à “Revolução energética”, lançada em 2006, que consistiu em substituir as lâmpadas e os antigos eletrodomésticos, como televisores, refrigeradores, ventiladores e outros aparelhos elétricos, por produtos mais modernos cujo consumo é menor, milhões de cubanos foram beneficiados por toda uma gama de produtos eletrodomésticos novos com preços subvencionados pelo Estado, ou seja, abaixo de seu valor de mercado.

Atualmente, a economia de energia que foi conseguida permite enfrentar a demanda da população, o que explica a eliminação progressiva das restrições quanto à aquisição de novos aparelhos eletrodomésticos, computadores e outros, como reprodutores de vídeo. Assim, os cubanos têm acesso a uma seleção mais ampla de bens de consumo. Portanto, as limitações tinham como explicação apenas um fator econômico, isto é, uma produção de energia insuficiente. A imprensa ocidental não se incomodou em abordar estes elementos ao tratar do tema.

A mídia apressou-se em sublinhar, com razão, que muitos cubanos não poderiam ter acesso aos artigos à venda pelo valor de mercado devido ao seu elevado custo com respeito ao salário relativamente modesto vigente em Cuba. Não obstante, esta realidade concerne a uma parte imensa da população mundial, que vive na pobreza e cujas principais preocupações não são adquirir um reprodutor de DVD ou um microondas, mas, sim, comer três vezes por dia e ter acesso a saúde e educação, angústias inexistentes em Cuba.

Assim, segundo o último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sobre a insegurança alimentar no mundo, 854 milhões de pessoas em todo o planeta, entre elas 9 milhões nos países industrializados, sofrem de desnutrição. No continente americano somente três países já alcançaram os objetivos da Cúpula Mundial da Alimentação 2015: Cuba, Guiana e Peru. Segundo a Unesco, atualmente, um de cada cinco adultos no mundo não é alfabetizado, ou seja 774 milhões de pessoas, e 74 milhões de crianças carecem de escolas. Segundo a Unicef, a cada dia mais de 26.000 crianças menores de cinco anos morrem de fome ou de doenças curáveis, ou seja 9,7 milhões de crianças por ano. Nenhum cubano faz parte destas listas...


Confira a matéria completa pelo link abaixo.

Fonte: Agência Carta Maior

Revirando a Teoria diz...

Muito ainda será discutido e registrado pela grande mídia sobre povos como os chineses, indianos e cubanos. Aliás, para os chineses parece que já começou com as declarações de apoio aos Tibetanos e boicote aos eventos da tocha olímpica pelo mundo.

Vai ser imensa a dedicação da imprensa mundial em execrar o estilo de vida e a cultura chinesa de modo geral. O duro é começar engolir qualquer ladainha, tipo "chinês trabalha por qualquer miséria" ou "a China só cresce porque tem mão-de-obra barata", e por aí vai.

Mas então, quais as questões e assuntos que realmente devem ser debatidos??
Por exemplo:
1) Quais mecanismos a China utiliza para incorporar a gestão e a tecnologia das multinacionais?
2) Como o Estado Chinês atua na determinação das políticas fiscais e monetárias que regem essa economia que cresce, em média, quase 10% ao ano?
3) Como funcionam os instrumentos de distribuição de conhecimento e de renda na China?
4) Como se organizam e se relacionam o povo chinês? Será que o fato de serem budistas e confucionistas alteram seus princípios e suas manifestações culturais?

A verdade é que a mídia está e estará evitando uma discussão como essa. Isso, por opção mesmo, como já sabemos. Esse câncer costuma ser lembrado nos artigos do jornalista Luis Nassif e do geógrafo Elias Jabbour e aqui vamos nomeá-lo de "Mal da Discussão Desfocada" ou, porque não, de "Doença da Discussão Desfocada".

Atinge quase a totalidade dos brasileiros. Na verdade, é crônica principalmente nas pessoas que costumam formar sua opinião embasados numa notícia da Globo, da Veja, da Folha, do Estadão e cia. Ou seja, quase o país inteiro. O "MDD" estraga todas as tentativas de entendimento e conciliação política entre amigos num bar, por exemplo.

Entretanto, é fato que a liderança econômica chinesa tende a se firmar em longo prazo. A capacidade do modelo de organização do povo chinês será posta à prova contra o modelo de desenvolvimento capitalista vigente. Talvez seja necessária uma nova roupagem, pois o debate capitalismo versus socialismo foi o mais prejudicado pelo "MDD", e as definições tanto de socialismo quanto de Estado Socialista perderam seu sentido original e hoje estão indissociáveis do socialismo da URSS. Falar em socialismo é lembrar daquela época e daquela história. Ninguém sabe o que veio antes nem depois, "...sabe-se que não deu certo, e pronto".

Daqui pra frente, vai ser comum a grande mídia caracterizar o modelo chinês como capitalista. É nesse momento que se faz necessário retomar as definições de mercado de exportações, socialismo de mercado e economia planificada. O modelo de crescimento da China pode ser muita coisa, mas simplesmente capitalista não é. A reforma agrária chinesa aconteceu na década de 70 com Deng Xiaoping. A infra-estrutura industrial foi armada já faz algum tempo, por meio de uma série de mecanismos de relacionamento interno e integração nacional. Mas o dado que fala por si é: das 500 maiores empresas chinesas, mais de 400 são estatais.

Haverá dedicação intensa da grande mídia em ocultar as características e as ações de caráter socialista que vêm sendo realizadas na China. Além, de aos poucos ir misturando definições básicas de uma discussão, assim torna-se impossível diferenciar conceitos simples como modelo de produção capitalista e modelo de produção para exportação. É esse mecanismo que fomenta o "MDD" nas pessoas e, até mesmo, em nossos amigos e parentes. O "MDD" é perigosíssimo, pode-se passar horas em debates calorosos sem resultar num aprendizado decente.

16 de abril de 2008

Brasil e o petróleo abundante...

O que diz a revista americana

A revista mensal World Oil, publicada há 90 anos em Houston, Texas, diz que sua equipe mantém "uma visão compartilhada, de oferecer conteúdo editorial superior sobre o mundo do petróleo". O artigo mencionado, Três supergigantescos campos descobertos na plataforma brasileira, é do editor colaborador Arthur Berman, ilustrado por um mapa (extraído do site da Petrobras; ver abaixo), um diagrama e um gráfico.

Pode ser consultado no endereço:
http://www.worldoil.com/magazine/MAGAZINE_DETAIL.asp?ART_ID=3450&MONTH_YEAR=Feb-2008.

"A petrobras anunciou recentemente três supergigantescos campos de petróleo na plataforma continental da Bacia de Campos. A companhia confirmou a descoberta de Tupi, no Bloco BM-S-11, em 8 de novembro de 2007 e afirmou que ele tem preservas recuperáveis prováveis entre 5 e 8 bilhões de barris de petróleo leve. Agora parece que outro campo petrolífero, possivelmente maior, batizado Carioca-Pão de Açúcar, foi descoberto 50 milhas (80 km) a oeste de Tupi. Uma terceira descoberta, o poço de Júpiter, foi anunciada em 21 de janeiro", escreveu Berman.

Terceiro campo depois de Ghawar e Burgan?

O artigo detalha as prospecções feitas na Bacia de Santos, sua localização e profundidade, a possível extensão do campo, quais os blocos de exploração que compreende, assim como as características do petróleo já descoberto. E prossegue:

"Caso as informações sobre o tamanho potencial da estrutura de Carioca-Pão de Açúcar comprovem a estimativa de 33 bilhões de barris de petróleo (entre 25 e 40 bilhões), e as reservas estimadas de Tupi e Júpiter sendo avaliadas em 6,5 bilhões de barris cada um (entre 5 e 8 bilhões), o bolo de Carioca-Pão de Açúcar seria o terceiro maior campo de petróleo do mundo", diz a revista. O primeiro, segundo o gráfico que ilustra a matéria, é o de Ghawar, na Arábia Saudita (65,1 bilhões de barris) e o segundo o de Greater Burgan, no Kuwait (46 bilhões). No mesmo gráfico, Tupi e Júpiter figuram em 43º e 44º lugares.

"Isto seria também o maior campo descoberto nos últimos 30 anos, enquanto Tupi e Júpiter figurariam como a sexta maior descoberta no mesmo período. Para efeito de comparação, Prudhoe Bay é o maior campo nos Estados Unidos, com 15,2 bilhões de barris de petróleo recuperável, e East Texas Field é o segundo, com 5,4 bilhões de barris", afirma ainda a revista.

O último parágrafo manifesta a opinião do autor, inquieto com a possível retirada de blocos-chave da nona rodada de leilões da ANP, que ele julga, "talvez", o tipo de "nacionalismo que alguns previram devido ao declínio das reservas mundiais de petróleo". Mas ele conclui com o que considera a "real mensagem dessas descobertas": "que não devemos perder de vista as bacias potenciais ainda desconhecidas, mas possivelmente grandes, que com freqüência são de exclusivo domínio de empresas petrolíferas nacionais".

Confira a reportagem completa aqui.

...de olho na gestão dos recursos naturais do Brasil!!

Ranking dos maiores campos de petróleos:


14 de abril de 2008

Milho transgênico da Monsanto é banido da Romênia por falta de segurança

O governo romeno anunciou no dia 27 de março que vai banir do país o milho geneticamente modificado MON 810 da Monsanto. A decisão é particularmente importante já que o milho é o único cultivo comercial de transgênicos permitido na Europa. Essa variedade é a mesma que foi aprovada em 2007 para plantio comercial no Brasil pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

A Romênia é o principal produtor de milho da União Européia em total de hectares plantados, com cerca de 3 milhões de hectares cultivados anualmente. Do milho MON 810 foram plantados 300 hectares no país desde 2007, representando apenas 0,01% do total de produção de milho da Romênia.

Com o anúncio do ministro do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Romênia, Attila Korodi, o maior produtor de milho da Europa se tornará livre de transgênicos. A Romênia é o oitavo país da Europa a banir o cultivo de variedades transgênicas, seguindo os passos da França, Hungria, Itália, Áustria, Grécia, Suíça e Polônia.

Preocupações sobre a segurança do milho MON 810 levaram o governo romeno a agir. Estudos científicos mostram que o milho MON 810 provoca danos à fauna, solo e saúde humana. Sua toxina embutida, programada para matar uma de suas pragas, entra no solo e provoca danos a minhocas, borboletas e aranhas. Provas de sua segurança para a saúde humana e animal são inconclusivas.

Um recente estudo do professor Gilles Eric Séralini, especialista do governo alemão em transgênicos da Universidade de Caen, encontrou sinais de toxicidade nos órgãos internos de animais alimentados com milho transgênico.

No final de 2007, o Comissário da União Européia para o Meio Ambiente, Stavros Dimas, usou estudos similares para bloquear o cultivo de outras duas variedades de milho transgênico, parecidos com o MON 810, na União Européia. Ele também fez referências a novos estudos que mostram que a toxina Bt produzida pelo milho transgênico tem efeitos negativos nos ecossistemas aquáticos.

"Enquanto a Europa proíbe o milho MON 810, da Monsanto, o Brasil está pronto para abrir suas terras a essa variedade transgênica suspeita de causar tantos problemas", critica Gabriela Vuolo, coordenadora da campanha de Engenharia Genética do Greenpeace Brasil. "Esse milho foi aprovado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e autorizada pelo Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS), que reúne 11 ministros. Deram às costas para o meio ambiente e à saúde dos brasileiros, privilegiando o agronegócio e uma tecnologia que não consegue comprovar sua segurança".

Contaminação genética

A contaminação de plantações convencionais por transgênicos é um problema sério. Em 2007 apenas, houve 39 novos casos de contaminação em 23 países. Apesar disso, não há padrões internacionais para responsabilizar as empresas de biotecnologia pelos danos causados e perdas financeiras.

O relatório Registro de Contaminação Transgênica 2007 (sumário executivo em português), produzido anualmente pelo Greenpeace e pelo Gene Watch UK, já constatou 216 casos de contaminação genética em 57 países diferentes, desde que as plantações geneticamente modificadas começaram a ser feitas comercialmente (em 1996).

Fonte: Agência Brasilde Fato - 03 /04/2008

7 de abril de 2008

Guerra no Iraque: 6.000.000.000.000 de dólares


Trecho da matéria:

... Após meses de pesquisas, Stiglitz e Bilmes publicaram agora seus circunstanciados descobrimentos. O resultado é assustador: a guerra de Bush no Iraque custou, só aos EUA, 3 trilhões de dólares. Nessa quantia estão incluídos os gastos bélicos diretos, na medida em que se refletem no orçamento dos EUA. A isso é preciso acrescentar os custos propriamente econômicos, que não aparecem no orçamento: Stiglitz e Bilmes calculam os efeitos macroeconômicos e econômico-planetários da guerra em pelo menos outros 3 trilhões de dólares. Apenas os custos diretos da guerra de Bush já ultrapassam os das guerras do Vietnã e da Coréia somados. O montante, estimado de modo conservador, destes 6 trilhões de dólares eqüivale aproximadamente ao valor de todas as reservas de ouro e divisas do mundo. Todos os meses, os EUA precisam desembolsar mais de 16 bilhões de dólares em custos correntes para as guerras do Iraque e do Afeganistão, além dos 439 bilhões de dólares do orçamento de defesa.

Chama a atenção a quantidade de coisas que o Pentágono e os assessores econômicos do governo de Bush passam por alto em matéria de custos: por exemplo, o custo dos soldados mortos e de seus familiares e dependentes. Ou o dispêndio gerado pelos numerosos feridos ou os gravemente mutilados, aos quais técnicas médicas avançadas conseguiram salvar a vida, ao preço de terem que continuar vivendo como jovens inválidos. Isso para não falar das vítimas iraquianas da guerra, que segundo estimativas de organizações não governamentais ascendem ao milhão de pessoas. E que também não aparecem nos cômputos de Stiglitz e Bilmes.

O governo dos EUA também mentiu no tocante aos custos da supostamente tão eficiente privatização da guerra. Os empregados das empresas de segurança que por encomenda do Pentágono desenvolvem no Iraque seu sangrento negócio custam, em média, dez vezes mais do que custa um G.I. regular (soldados de infantaria) - 400.000 dólares por ano, contra 40.000. Agora há 180.000 mercenários no Iraque. Comparadas a isso, as medidas de economia adotadas parecem piada de falsário: os soldados norte-americanos teriam que financiar parcialmente seu equipamento, segundo exigem os estudos de substituição de danos do Pentágono.

Stiglitz e Bilmes calcularam, também, o que já custou o aventureiro financiamento da guerra de Bush e o que vai terminar custando. Por causa dos cortes fiscais massivos em favor das grandes empresas e dos possuidores de capital e patrimônio, uma parte crescente dos gastos bélicos teve que ser financiada com créditos. Isso vai custar, nos próximos anos, centenas de milhares de milhões de dólares em juros. Uma vez que os norte-americanos não economizam, senão que vivem em esmagadora maioria de empréstimos (muitos foram forçados a isso por salários e rendas em baixa), os juros terão que ser financiados com importações de capital. O crescente endividamento do Estado transforma- se, assim, a um ritmo vertiginoso, em um crescente endividamento exterior.

O governo Bush acaba dentro de alguns meses; as conseqüências financeiras de sua aventura bélica serão padecidas pelas gerações e os governos vindouros. ...

Para ler a matéria inteira: Michael Krätke

Fonte:
Michael Krätke, membro do Conselho Editorial de SINPERMISO, estudou Economia e Ciências Políticas em Berlim e em Paris. Atualmente é professor de Ciências Políticas e de Economia em várias universidades alemãs e no estrangeiro, desde 1981 principalmente em Amsterdã. Co- editor da revista alemã SPW (Revista de política socialista e economia) e da nova edição crítica das Obras Completas de Marx e Engels (Marx-Engels Gesamtausgabe, nueva MEGA). Pesquisador associado ao Instituto Internacional de História Social em Amsterdã. Autor de numerosos livros sobre economia política internacional.

Luiz Gonzaga Belluzzo: "A ortodoxia e o conto de fadas"


Em artigo para o jornal Valor Econômico, o economista e professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo ataca a idéia da ortodoxia monetária. Ele lembra que o capitalismo não é um espaço homogêneo e harmônico, mas sim uma organização social governada "pela lógica do enriquecimento privado" e discorre sobre as conseqüências sofridas pela sociedade devido a essas características.

A ortodoxia e o conto de fadas

No livro "La Monnaie Souveraine", os economistas Michel Aglietta e André Orléan definem a existência de três lógicas articuladas que sustentam a reprodução da ordem monetária enquanto dimensão essencial da ordem social: a confiança hierárquica, a confiança metódica e a confiança ética. "A confiança hierárquica se exprime sob a forma de uma instituição, o Banco Central, que anuncia as normas de utilização da moeda e que é responsável pela emissão do meio de pagamento final (...) A confiança metódica opera no âmbito da segurança das relações interindividuais, garante a reprodução quotidiana e rotineira dos atos que constituem a ordem monetária, sobretudo os pagamentos das dívidas nascidas do seu funcionamento (...) A confiança ética diz respeito ao caráter universal dos direitos da pessoa humana."

A economia capitalista não é um espaço homogêneo onde os desejos dos indivíduos utilitaristas se harmonizam ou, como pretendem outros desavisados, um sistema de "produção de mercadorias por mercadorias", senão uma organização social governada, para o bem e para o mal, pela lógica do enriquecimento privado. Os agentes privados, na busca do enriquecimento, tratam de romper - sim, romper - as regras existentes mediante a inovação e a transgressão sistemática das práticas rotineiras. Suas ações aventureiras, apoiadas no sistema de crédito, no mesmo movimento, criam a riqueza nova e desvalorizam a "riqueza velha".

Inquietos, os agentes da finança globalizada conseguiram, até agora, escapar das conseqüências das próprias estripulias. Com o ânimo açulado por intervenções salvadoras dos bancos centrais nos anos 80 e 90 do século XX, os transgressores progressistas, depois da festança das tecnologias da informação, investiram sua audácia na valorização dos imóveis e na conquista de clientela sem reputação e meios de servir os empréstimos contraídos.

As turbulências que ora atormentam os mercados financeiros demonstram que os deslocamentos radicais operados pelas inovações no sistema de crédito e nos preços dos ativos não configuram uma anomalia. Correspondem à razão interna de uma economia voltada para a acumulação ilimitada da riqueza monetária, mediante a produção de mercadorias. Se possível fosse, esse estorvo desagradável seria dispensado.

Para desapontamento de muitos, o funcionamento da sociedade capitalista de mercado, fundada no enriquecimento privado, depende da capacidade do Estado de manter o equilíbrio instável e contraditório entre as três formas de confiança. A instituição responsável pela gestão da moeda, o Banco Central, ao intervir no sistema privado de crédito, tem um olho no peixe e outro no gato: cuida de evitar a deflagração do crash e, ao mesmo tempo, trata de reafirmar a vigência das normas que garantem a soberania do representante da riqueza universal. Não bastasse isso, o Estado moderno não pode escapar aos constrangimentos da "confiança ética" mencionada por Aglietta e Orléan. Em termos práticos: o Estado americano não será poupado de contemplar os interesses dos cidadãos vitimados pela atual crise imobiliária, o que inevitavelmente sobrecarregará os seus compromissos fiscais e monetários.

Não é pacífica a convivência entre o mundo da finança - constituído pelas instituições, regras e procedimentos relacionados com a avaliação da riqueza - e a política democrática, entendida como o âmbito por excelência da escolha humana, da busca da liberdade. Tampouco é incontroversa a questão das peculiaridades da gestão monetária e de seus limites. Não há modelo que possa ser estabelecido como absoluto ou considerado único. A não submissão dos atos de gestão monetária aos interesses particularistas - sejam eles os da política ou os dos grandes negócios - é impossível de ser assegurada a priori. Os defensores do "Banco Central Independente" - sempre escorados em algum suposto sobre a neutralidade da moeda e a estabilidade da demanda deste ativo pelos detentores de riqueza - argumentam que é necessário prevenir as tentações de estripulias monetárias praticadas por conta do "ciclo político".

A independência do Banco Central é entendida como uma forma de limitar as influências do poder privado ou dos governos de turno no exercício da administração monetária. A capacidade de impor limitações está, no entanto, submetida a hipóteses contaminadas por preconceitos ideológicos. A idéia de que é possível impor normas homogêneas e previsíveis aos mercados supõe, além de comportamentos improváveis dos possuidores de riqueza, condições iguais de poder financeiro e de acesso à liquidez entre os centros privados de decisão - digamos, entre o morador do Bronx e o J.P. Morgan.

Esse conto de fadas ignora - o que é mais grave - a possibilidade de captura do BC pelas "forças do mercado", descuido imperdoável diante das "realidades" da vida econômica moderna. A ortodoxia monetária, em qualquer de suas versões, toma como um princípio o que, na realidade, é um resultado que depende fundamentalmente dos movimentos da concorrência entre os poderes privados, empenhados na luta feroz pela acumulação monetária. Os conservadores não admitem a existência de diferenças de poder entre os agentes privados. Os bancos centrais estão, portanto, submetidos a tensões permanentes. Os credores e proprietários da riqueza líquida costumam exigir mais "austeridade" e os devedores e despossuídos pedem mais generosidade por parte das políticas monetárias. Estas políticas definem, na verdade, as condições de acesso à liquidez, ao obscuro objeto do desejo.

A chamada política de metas, por exemplo, pretende - a partir de uma série de indicadores prospectivos - estabilizar expectativas privadas, mediante o compromisso de manter a inflação dentro de um intervalo de variação, fixado em torno de um objetivo central. Como o velho monetarismo, a política de metas supõe que as decisões privadas são racionais e que o "jogo da confiança" só pode ser burlado pela violação das regras pelas autoridades eleitas. Trata-se do truque de desconsiderar as bruscas alterações nas expectativas (ou nos interesses) das instituições privadas mais influentes.

2 de abril de 2008

Inovação Tecnológica no Brasil e no Mundo



A ANPEI - Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras foi citada na notícia "O desafio de criar empresas inovadoras" na coluna de Economia do blog do jornalista, sempre requisitado pela Rep. Nem Veno, Luis Nassif.

site:
www.anpei.org.br

O estudo de 2006, publicado pela ANPEI: com o título de "Inovação Tecnológica no Brasil", o trabalho possui dados relevantes para a compreensão adequada do cenário tecnológico brasileiro e mundial:

Leia o estudo de 2006 completo: ANPEI_estudo_2006

No Brasil:
No Mundo:Conteúdo importante do estudo:

Fonte: Inovação Tecnológica no Brasil:A indústria em busca da competitividade global / Mauro Arruda, Roberto Velmulm, Sandra Hollanda, Anpei, São Paulo, Brasil 2006.

30 de março de 2008

...crise imobiliária é sim, crise de Crédito!



Os Estados Unidos e sua crise econômica

O sistema financeiro que conhecemos esgotou uma modalidade de rapina, desconhecida pela grande maioria do povo, mas que afeta a todos nós, apesar de não sabermos direito como funciona. Como disse Henry Ford: “É bom que o povo não entenda nosso sistema bancário e monetário, porque se entendesse, acho que haveria uma revolução antes de amanhã”.

1. Uma breve síntese histórica

Durante os felizes anos 1990, a expansão econômica parecia infinita e ia em dois sentidos, para a frente e para cima. O capitalismo tinha encontrado sua fórmula mágica “definitiva” para superar as crises – chamadas agora de recessões - manipulando os instrumentos financeiros que permitiam que os refluxos fossem relativamente breves e de baixo impacto. Em essência, a fórmula adotada no “Consenso de Washington” apelava para a abertura dos mercados, a liberalização absoluta do fluxo de capitais, a “inflação financeira” quase descontrolada e o controle dessas desregulamentações pelos instrumentos mundiais de controle (FMI e Banco Mundial).

É claro que ao longo dos anos 1990 houve uma seqüência de crises diversas – a dos “tigres asiáticos”, Rússia, Turquia, México - porém, as respostas para todas elas foi aplicar a fórmula mágica: injetar dinheiro em seus sistemas para que o jogo continuasse. E esse jogo, por sua vez, foi um imenso multiplicador do dinheiro, tanto do real quanto do fictício.

Nesse marco, os mercados de futuros cresceram como nunca. Com a abertura do NYMEX, em 1988, os Estados Unidos passaram a controlar o preço do petróleo, reduzindo assim os duros efeitos da crise petroleira de 1973 e gerando um mercado de futuros que expandiu a especulação e a injeção de dinheiro no sistema de forma massiva.

Paul M. Sweezy, em seu último trabalho, pouco antes de morrer, explica claramente a situação. Na verdade, Sweezy demonstra que a “expansão”, que ele analisa e critica duramente, já estava presente em todas as suas modalidades em meados dos anos 1980. Talvez o exemplo da origem da situação atual nos seja oferecido por um exemplo didático para aqueles que não somos economistas: vamos supor que um dono de loja deposita 1000 dólares no Banco A e desse depósito 800 dólares são emprestados e depositados no Banco B. “Agora, o Banco B tem um aumento em seus depósitos de 800 dólares, dos quais 160 são mantidos em reserva e 640 dólares são emprestados. A seqüência continua quando 512 dólares terminam entre os depósitos do Banco C, etc. O depósito inicial de 1000 dólares cresce, finalmente, para 5000 dólares”. Esse dinheiro na verdade não existe, os mil dólares iniciais são os reais, os 5000 finais, que supostamente estão no sistema financeiro, são fictícios, são produto da especulação.

Essa “bicicleta” de artifícios foi o que o capitalismo financeiro esteve fazendo desde meados dos anos 1980 e a queda do comunismo deu mais alento ao modelo, porque com ela ficava demostrado que o capitalismo era imbatível e que os EUA eram seu motor indiscutível. O “Consenso de Washington” foi a benção final para a abertura e para a globalização feroz, dando o aval “definitivo” para a especulação financeira como receita e solução dos problemas. Hoje sabemos que o fracasso é retumbante.

No meio deste processo, Alan Greenspan assume a presidência do Federal Reserve (FED) e se transforma, durante 18 anos, em guru da globalização e da expansão financeira e econômica mundial. Sua receita não foi muito diferente dos acordos do “Consenso de Washington” poucos anos depois, aplicando nos EUA a solução de promover uma seqüência de “bolhas”. A primeira em importância foi a bolha das “ponto com”. Uma suposta “nova economia”, baseada em bens intangíveis e na alta tecnologia, abria passagem a tal ponto que a Bolsa de Valores de Nova York criou um índice especial para avaliar sua cotação: o NASDAQ.

A bolha das “ponto com” estourou no final dos anos 1990. Muitas das empresas líderes entraram em crise terminal, a especulação financeira e as expansões de crédito fundadas nessas empresas afundaram e a “metal-mecânica” — a grande vencedora da Guerra do Golfo Pérsico, em 1990 — renasceu com força. Mas a solução de Greenspan foi rápida e simples: criar uma nova bolha.

De fato, a crise das “ponto com” foi solucionada com a manipulação das taxas de juros da FED. O Federal Reserve determina o valor do dinheiro por meio da taxa de juros que cobra dos bancos quando empresta ou entrega dinheiro. O valor dessas taxas determina o preço do dinheiro, ou seja, o juro cobrado pelos bancos quando oferecem créditos aos seus clientes. Assim, se a taxa da FED cai, os créditos também caem; se ocorre o contrário, as taxas dos créditos sobem. A “mão oculta do mercado” é, na verdade, a mão do presidente do banco central dos EUA.

Durante os últimos anos da década de 1990, o FED reduziu a taxa de juros aos seus índices mínimos históricos. A partir dessa época e até julho de 2004 os tipos de juros da FED eram de 1%. A razão? Injetar “dinheiro barato” no sistema financeiro para promover uma reativação após a crise provocada pela queda das “ponto com”. A injeção de “dinheiro fácil” expandiu o crédito e, com isto, o consumo e a economia teve uma reativação, mas criando uma nova bolha que relançou o sistema: a “bolha sub-prime” a dos “bônus hipotecários lixo”: a bolha imobiliária.

A injeção de dinheiro barato expandiu o crédito com baixas taxas de juros e a especulação financeira adquiriu novo fôlego, mas com uma modalidade “engenhosa”, dirigida ao mercado de hipotecas imobiliárias.

Quando a expansão do crédito imobiliário chegou ao seu ponto máximo, a banca dirigiu seus olhos aos setores que não possuíam moradia própria e que não tinham possibilidade de aceder a créditos. Estes são os pobres dos Estados Unidos, aqueles com baixa renda ou com um histórico de maus pagadores, que não tinham acesso às hipotecas porque representavam um risco muito alto. Mas agora, com a taxa de juros da FED em 1%, supostamente qualquer um podia pagar as hipotecas e o sistema financeiro lançou-se à caça daqueles que devido ao seu baixo nível de renda ou ao seu mau histórico só podiam ter acesso a créditos baratos. Assim, lançaram uma campanha de captação de clientes, oferecendo hipotecas com juro variável, com a expectativa de que as taxas da FED não iriam subir. O risco era enorme, os pobres podiam deixar de pagar se os juros subiam, mas essa era apenas uma hipótese, e certamente isso não ia acontecer.

Mas o risco existia e todo o mundo sabia disso. Conseqüentemente, para financiar as hipotecas de alto risco —“sub-prime”, ou seja, abaixo das melhores— e ficarem cobertas, além de para captar capital, as instituições financeiras lançaram no mercado uma série de bônus “sub-prime” respaldados por créditos hipotecários de risco. Dado o nível de risco, os juros que esses “bônus hipotecários lixo” pagavam eram altíssimos, em média de 30% ao ano. E para torná-los ainda mais “tentadores” jogaram uma carta ainda mais arriscada: conseguiram o aval das seguradoras de crédito.

Termine de ler a reportagem pelo link: Agência Carta Maior

Outras obras excelentes do cartunista Carlos Latuff.
clica no link pra visitar a galeria do cara: Latuff


BRIC - Que venha a nova ordem mundial...



Ford vende Jaguar e Land Rover para a Tata Motors


Fonte: Gazeta do Povo - 27/03/08

A Ford fechou por US$ 2 bilhões a venda da Jaguar e da Land Rover, suas duas marcas de luxo, para a montadora indiana Tata Motors. O negócio vai colocar nas mãos da fabricante do carro mais barato do mundo, o Nano, que custa o equivalente a R$ 4,5 mil, duas das marcas mais tradicionais do Reino Unido.

Com isso, a Tata Motors, do magnata Ratan Tata, um dos empresários mais importantes da Índia e que enxerga longe, vai se tornando também uma gigante da indústria automobilística. A montadora, agora, passa de prima pobre a nobre, e vai circular nas rodas mais populares e também nas mais luxuosas do mundo.

US$ 12,7 bilhões de prejuízos

A Ford optou pela negociação com a Tata Motors porque ela tem experiência no mercado e capital para investimento. A montadora norte-americana preferiu se desfazer das duas marcas inglesas para cobrir prejuízos recordes de US$ 12,7 bilhões no ano passado.

A decisão de vender as marcas inglesas foi uma estratégia da Ford de se concentrar no mercado americano. A empresa quer se tornar mais enxuta e competitiva.

A Jaguar foi comprada pela Ford em 1989, por US$ 2,5 bilhões. A Land Rover veio no ano seguinte, por US$ 2,75 bilhões. Agora, elas vão ser vendidas por US$ 2 bilhões, menos da metade do valor pago pelas duas. A idéia é recuperar as perdas dos últimos anos, que quase levaram a montadora americana à falência.

Tata Motors

A negociação vira os holofotes para uma empresa que vai aos poucos se tornando uma gigante da indústria automobilística. A Tata Motors é um dos braços do grupo Tata, cujo conglomerado conta com indústria de aço, montadora de caminhões, e fábricas de software, que fatura US$ 48 milhões por ano.

O Nano é pequeno, feito sob medida para bolsos do tamanho dele. Custa cerca de R$ 4,5 mil na Índia, o mesmo valor só do sistema de som implantado em um Land Rover. A Jaguar e a Land Rover têm máquinas luxuosas, que cabem no orçamento de poucos mortais. Mas, agora, todos vão sair do mesmo forno, sem discriminação.

28 de março de 2008

China e a Etapa Primária do Socialismo


Atualmente os chineses são os que mais elaboram, ou melhor, desenvolvem o marxismo. Não se trata de nenhuma surpresa, afinal diuturnamente as demandas de uma nação controlada por comunistas impõem soluções rápidas. Mais, as especificidades da formação social chinesa -, seu tamanho territorial e da população (e seu nível cultural), o nível de desenvolvimento das forças produtivas, a influência – no âmbito da superestrutura - de modos de produção proscritos, seus limites em recursos naturais, a correlação de forças em âmbito mundial, entre outras determinações -, demandam investigações científicas que trazem como conseqüência novas elaborações que atualizam e enriquecem o legado teórico do marxismo.

Por Elias Jabbour*

Uma das sínteses das inúmeras elaborações diz respeito a uma chamada “etapa primária do socialismo” na qual a China se encontra e se encontrará ainda por algum tempo. O que vem a ser dita etapa?

O surgimento do termo em Preobrazhenski e o “modelo soviético”

O economista russo Evgeni Preobrazhenski (1886-1937) foi o primeiro a se referir a uma chamada “etapa primária do socialismo”(1).
O economista russo tornou-se famoso pelas análises da relação entre inflação e industrialização em economias agrárias atrasadas e em estado de isolamento internacional, como a Rússia revolucionária. A oposição que fez à implementação da NEP era substanciada pelo diagnóstico, onde a industrialização russa passava por uma forte necessidade de investimentos, cujos efeitos (geração de renda, p. ex.) se sentiriam antes do aumento da produção. Logo, uma onda inflacionária colocaria em risco a aliança operário-camponesa (2).
A “etapa primária do socialismo” em Preobrazhenski seria uma formatação geral onde a chamada harmonia entre superestrutura e base econômica seria possibilitada. Este estágio da transição teria como objetivo a formação de uma acumulação primitiva socialista. Tal estágio - alcunhado e análogo ao processo de acumulação primitiva capitalista descrito por Marx no final do Livro 1 de O Capital – partiu do princípio de que o processo de financiamento da economia russa seria impossível nos quadros de uma economia isolada (impossibilidade de acumular divisas estrangeiras), logo a industria se via sem condições de “puxar” o processo de acumulação e financiamento.
Assim, a acumulação primitiva socialista, em Preobrazhenski, seria possível nos marcos de trocas desiguais entre a agricultura e a indústria. Os problemas da inflação e do investimento seriam resolvidos na transformação, ou desvio, dos excedentes camponeses transformados em consumo para o investimento. Esse processo - descrito superficialmente - convencionou-se chamar de “modelo soviético de desenvolvimento” (3).

O problema chinês

Os chineses a partir de 1978 passam a determinar de maneira mais clara o conceito de “etapa primária do socialismo”. A superação desta etapa, porém – no caso chinês – deixou de ser pela via do “modelo soviético”, para a via de uma NEP em proporções gigantescas.
A opção pelo “socialismo de mercado”, ou de forma mais suscinta, transformar os excedentes comercializaveis dos camponeses em poupança inicial, traria e trouxe a solução de pelo menos três óbices: 1) reversão das trocas desiguais, agora amplamente favoráveis aos camponeses; 2) solucionar a questão do abastecimento alimentar e formação de um mercado consunidor para produtos industrializados (bens de consumo) e 3) recompor assim o pacto de poder de 1949, caracterizado pela hegemonia camponesa, base esta desgastada com a proibição de comercialização de produtos agrícolas da era-Mao.
O leitor pode se perguntar se os efeitos (inflação) indicados por Preobrazhenski por conta da aplicação da NEP, não poderia ocorrer. Respondo que sim, a inflação corroedora de salários atingiu em cheio a China no final da década de 1980, sendo um dos estímulos à rebelião contra-revolucionária de junho de 1989. A capacidade de importação de máquinas e a consequente formação de um Departamento 1 Novo (indústria mecânica pesada), abriu soluções a este problema.

A definição do termo em Deng Xiaoping

Retornando, logo a classe camponesa numa formação social específica, como a chinesa, poderia desempenhar um papel muito mais ativo no processo de acumulação do que em outros países, como a Rússia.
O pressuposto da solução via camponeses médios elaborada por Deng Xiaoping, foi sintetizado na caracterização de uma formação social (no caso, chinesa) que se encontraria ainda na etapa primária do socialismo, como segue: 1) formação social onde a maior parte da população está ocupada na agricultura e dependente do trabalho manual; 2) escassez de recursos minerais; 3) ciência e tecnologia atrasadas; 4) grandes disparidades regionais de ordem econômica, social e cultural; 5) grande parte da população vivendo com dificuldades; 6) falta de autonomia tecnológica e de financiamento, e; 7) grande distância para com o nível de desenvolvimento do centro do sistema (4).
Levando-se em conta a realidade russa em 1917 e a realidade chinesa em 1938 (o nível de desenvolvimento chinês de então, era semelhante ao verificado na Rússia em 1938), a definição chinesa de “etapa primária do socialismo” é equivalente à que demandaria numa realidade como a vivida por Preobrazhenski em Rússia quase medieval.

O caso brasileiro

Até que ponto, para o Brasil, poderia se enquadrar esta tal “etapa primáia do socialismo” elaborada nos termos levantados por Preobrazhenski e Deng Xiaoping?
Sinceramente muio pouco. Por que? Porque o Brasil já tem mais de dois terços da população vivendo nas cidades, temos um sistema financeiro (bancos estatais e privados e um mercado de capitais) pronto para carrear recursos aos sotores estrangulados da economia. Temos uma grande produção agrícola altamente competente e de ponta a nível mundial e um edifício industrial completo, inclusive com um Departamento 1 Novo na economia, pronto para fabricar trilhos, geradores, locomotivas, trens, etc. Temos excelência em pesquisas em todos os ramos científicos.
A nossa realidade é muito mais promissora que a vivida pelos russos em 1917 e os chineses em 1949 e 1978.
Uma república dos trabalhadores e das amplas massas populares (conforme nosso Programa Socialista) no Brasil partiria de uma situação onde seria mister aprofundar a industrialização no campo (nunca retornar à pré-história com propostas de cunho anticientíficas que se transformaram em senso comum na esquerda), manter uma classe privada de pequenos e médios produtores rurais, centralizar o sistema financeiro à servir de base à socialização da produção ao mesmo tempo em que novos campos de investimentos se abram nas cidades.
Por fim, acelerar o processo de automação industrial, ultra-necessário à libertação do home do jugo da máquina, no rumo da auto-gestão da produção.
Agora como nossa vontade não está acima das leis da natureza, continuemos no rumo da acumulação estratégica de forças.

Notas:
(1) DAY, R. B.: “Preobrazhenski and the Theory of the Transitional Period”. Soviet Studies 8. New York, 1975, p. 08.
(2) FILZER, D. (org.): “1921-1927: The Crisis of Soviet Industrialization: Selected Essays”. White Plains. Sharpe, London, 1980, p. 153.
(3)No que tange a regulação econômica durante o estágio de “acumulação primitiva socialista”, Preobrazhenski sugeria a coexistência de duas formas regulatórias: uma controlada pelo Estado (planejamento) e outra pautada pela lei do valor, ou seja, resultado da manutenção da produção privada de mercadorias e da propriedade privada. Trata-se de formas de mediar as diferenças existentes entre relações de produção socialistas e privadas coexistentes no período de transição.
(4) ZEMIN, Jiang: “Hold High the Great Banner of Deng Xiaoping Theory for an All-Round Advance of the Cause of Building Socialism with Chinese Characteristics into the Twenty-First Century”. Report to the Fifteenth National Congress of Communist Party of China. People’s Publishing House, Beijing, 1992, p. 15.

*Elias Jabbour, é Doutorando e Mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP, membro do Conselho Editorial da Revista Princípios e autor de ''China: infra-estruturas e crescimento econômico'' 256 pág. (Anita Garibaldi).

27 de março de 2008

A nova era do mercado brasileiro


Coluna Econômica - 27/03/2008

A fusão entre a Bovespa Holding S.A. e a Bolsa de Mercadorias & Futuros-BM&F S.A. (“BM&F”) criou a terceira maior bolsa do mundo, a segunda das Américas, em valor de mercado – embora, na saída, os papéis estejam um pouco caros.

A “Nova Bolsa”- como está sendo chamada – integrará as operações com ações e derivativos de ações da Bovespa, com os mercados futuros financeiros, de commodities e de câmbio na BM&F.

Os números são maiúsculos. Pelo balanço dos seis primeiros meses de 2007, a soma das operações das duas bolsas representaram:

• 71% do volume financeiro total na América Latina;

• 55% do valor de mercado do total de bolsas da América Latina;

• 78% do volume financeiro do total de ofertas de ações realizadas na América Latina.

A fusão da Bovespa com a BM&F criará, segundo as empresas, a terceira maior bolsa do mundo e a segunda das Américas, em valor de mercado. “É a maior da América Latina nos mercados de ações e derivativos, com participação de aproximadamente 80% do volume médio diário negociado com ações, e com negócios diários no mercado futuro no valor de US$ 67 bilhões”, confirmaram as empresas. A nova companhia terá o nome provisório de Nova Bolsa e terá as ações negociadas no Novo Mercado.

***

A importância dessa fusão transcende o mercado de capitais. A partir de agora, a Nova Bolsa será elemento estratégico em pelo menos três estratégias nacionais: a integração econômica e diplomática com a America do Sul; a integração de empresas e mercados; a consolidação do Brasil como o maior país agrícola do mundo.

***

No primeiro caso, já existe um amplo mapeamento de obras de integração regional. A perna que falta é a da capitalização das empresas que irão executar esses trabalhos. A Nova Bolsa terá um poder de captação muito maior, para bancar os grandes projetos de infra-estrutura.

Além disso, uma grande bolsa do continente facilitará a implantação de um sistema de comércio menos dependente do dólar – ponto de estrangulamento em qualquer crise cambial. Os países poderão vender uns para os outros e a compensação entre as moedas ser realizada nos mercados à vista ou futuros dessa Nova Bolsa.

***

No campo da integração empresarial, um dos pontos centrais será criar cadeias produtivas entre os países da região. Será a maneira de fortalecer os laços econômicos, ajudar a criar um mercado de consumo maior e ganhar competitividade para enfrentar outros blocos econômicos.

Antes só podiam operar nas Bolsas corretoras que dispusessem de cartas-patente. Agora, qualquer instituição que disponha de um capital mínimo de ações. A Nova Bolsa atrairá mais facilmente corretoras e instituições de outros países. Assim como empresas de países vizinhos atrás de capitalização ou de sócios.

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No campo agrícola, hoje em dia os principais produtos agrícolas brasileiros têm sua cotação fixada em bolsas estrangeiras. Com a musculatura adquirida, será mais fácil para a Nova Bolsa criar produtos adequados à realidade brasileira e permitir ao país ter peso relevante no processo de fixação de preços internacionais.

enviada por Luis Nassif

26 de março de 2008

Trabajo esclavo en una empresa de Brasil con acciones de Bill Clinton


Más de 130 trabajadores en situación de esclavitud fueron liberados de una multinacional que tiene como mayores accionistas al ex presidente de EEUU y al ex presidente del Banco Mundial.

La empresa Brenco actúa en la producción de etanol y fue condenada por la situación de sus empleados tras una inspección del Grupo Móvil de Combate al Trabajo Esclavo.

El operativo se realizó en los municipios de Mineiros y Campo Alegre, en el estado de Goiás, región centro oeste brasileña.

En las dos propiedades los trabajadores se desempeñaban bajo condiciones de esclavitud en el corte de caña de azúcar.

La empresa cuestionada tiene como accionistas al ex presidente de los Estados Unidos, Bill Clinton, y el ex presidente del Banco Mundial, Steve Case.

Los trabajadores dormían hacinados, con precarios cuidados higiénicos y debían soportar frío y hambre.

El procurador del trabajo, Antônio Carlos, que acompañó el operativo contra la empresa informó que la Brenco tendrá que pagar 2,5 millones de dólares, por daños moralescolectivos.

En tanto, continuaron las inspecciones y continúan apareciendo irregularidades en las condiciones de trabajo de locales administrados por la misma empresa.
Por su parte, la Comisión Pastoral de la Tierra afirma que en Brasil aproximadamente 40 mil personas viven en situación de esclavitud.


PÚLSAR/RadioagenciaNP

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